Josué de Castro, cidadão do mundo

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O Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC) da UFRJ promoveu, nessa terça-feira (2/9), um evento em celebração ao "Centenário de nascimento de Josué de Castro, Cidadão do Mundo". Durante a manhã teve lugar um culto ecumênico, conduzido por Dom Mauro Morelli, na Capela de São Pedro de Alcântara, seguido de uma Sessão Solene da Congregação do INJC, em sua homenagem, no Salão Dourado do Fórum de Ciência e Cultura (FCC).

Na congregação estiverem presentes o reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira; a professora e filha de Josué de Castro, Ana Maria de Castro; a pró-reitora de extensão, Laura Tavares; a diretora do INJC, professora Elizabeth Accioly; a vice-diretora do INJC, Glória Valéria de Veiga, além de outros convidados e representantes do corpo discente e docente. Na ocasião foi entregue à professora Ana Maria de Castro uma placa comemorativa a seu pai e uma camisa do evento.

Josué de Castro foi um médico, nutricionista, professor, antropólogo, geógrafo, sociólogo, escritor e político brasileiro que se lançou como pioneiro no movimento nacional contra a fome. Durante sua vida, publicou diversos livros e pesquisas que lhe conferiram destaque  mundial. Geografia da Fome, seu mais conhecido livro, já traduzido em 25 idiomas, denuncia a fome como efeito dos processos de colonização ao redor do mundo.

— José de Castro tocou na questão essencial: a fome, a desnutrição e os efeitos que a fome gera na sociedade.  Mas viu que a fome não é só uma fatalidade de algum determinismo: é uma estrutura social, é resultado da desigualdade que marca este país — disse o reitor.

Nascido em Recife e tendo iniciado seus estudos na Faculdade de Medicina da Bahia, Josué de Castro concluiu o curso, aos 21 anos, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que viria mais tarde a se tranformar na UFRJ. Na universidade manteve seu caminho de pesquisador e, em 13 de maio de 1946, fundou o Instituto de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (INUB) que resultou da incorporação do Instituto de Tecnologia Alimentar (ITA) à então Universidade do Brasil.

Este cidadão do mundo teve influência sobre importantes transformações sociais e políticas do país. Como membro da Comissão de Inquérito para Estudo da Alimentação do Povo Brasileiro, realizada em 1936 pelo Departamento Nacional de Saúde do governo Vargas, desempenhou papel importante para a criação do salário mínimo e da cesta básica, que foram implantados a partir dos resultados obtidos em suas pesquisas.

— Nosso homenageado foi o primeiro a denunciar o flagelo da fome e a defender que ele era resultado de um modelo econômico perverso do capital internacional. Pregava que a fome era resultado da ação do ser humano contra seu semelhante — lembrou Elizabeth Accioly, diretora do Instituto de Nutrição da UFRJ que em 1996, ao completar 50 anos, passou a levar o nome de seu fundador.

Josué de Castro foi três vezes indicado ao prêmio Nobel da paz e em 1952 tornou-se presidente do Conselho da Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO).  Em 1967 passou a integrar o grupo Cidadãos do Mundo _ treze personalidades de reputação internacional reunidas para discutir a formação de instituições mundiais que exprimissem as reivindicações de todos os povos. Entre os membros do grupo estavam Lord Boyd Orr, Alfred Kastler, Linus Pauling, Rajan Nehru e Bertrand Russell.

Devido a suas idéias revolucionárias, teve seus direitos políticos cassados em 1964, quando era embaixador do Brasil junto aos Órgãos das Nações Unidas, em Genebra, e foi obrigado pelo regime militar vigente a deixar o Brasil e mudar-se para a França, onde morreu no dia 24 de setembro de 1973, aos 65 anos de idade.

Durante a congregação em homenagem a seu pai, Ana Maria de Castro recordou outra professora da UFRJ recentemente falecida, Suelly de Souza Almeida, ex-diretora da Escola de Serviço Social e ex-decana do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, que havia proferido um discurso sobre Josué de Castro em 2003, durante a cerimônia na qual foi concedido a ele o título de Doutor honoris causa in memoriam.

— Josué de Castro sabia reunir teoria e política. Morreu no exílio e voltou ao país, a que dedicou toda a sua vida, sem vida. Deixou-nos um legado que se faz atual em programas do governo como o Fome Zero. Lutou para que se desenvolvessem grandes programas contra a fome que não se baseassem no assistencialismo — disse Ana Maria de Castro, citando o discurso da professora Suelly de Souza Almeida.

Ao fim da congregação, o reitor fez seu pronunciamento, exaltando Josué de Castro: “Mais oportunidades tivesse, mais homenagens faríamos e ainda assim seria pouco. Josué é acima de tudo um exemplo para nós, ele era um cientista engajado. Não se preocupava com o trabalho em laboratório tentando usufruir prazer pessoal: ele via o conhecimento como uma arma social. Nós devíamos sempre pensar na caneta, no quadro, no giz, como instrumentos sociais”.

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