Mesa redonda discute papel do assistente social em situações de calamidade pública

“Como pensar em direitos humanos numa sociedade que produz barbárie social?”. É esta a pergunta que se faz a tenente Sabrina Zacaron, assistente social e subdiretora de Encargos Especiais do Comando da Aeronáutica (ComAer). Ao lado de Cláudia Barboza, assistente social da Secretaria Municipal de Nova Friburgo, discutiu-se a participação do profissional de Serviço Social em eventos trágicos e atípicos, na mesa redonda “Situações de calamidades e intervenções do Serviço Social”, realizada na última quarta-feira (25/06), e promovida pelo Centro de Cidadania da Praia Vermelha, organizado pelas professoras Rosana Morgado e Ludmila Cavalcanti.

À frente do serviço social do ComAer, a tenente Sabrina contou sua experiência junto ao Exército Brasileiro e à Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti, após o terremoto de sete graus na Escala Richter que devastou o país, em janeiro de 2010. “Inicialmente, fomos atender as necessidades dos soldados do Exército, mas depois, pela situação, fomos para o Hospital de Campanha atender a população haitiana”, afirmou Sabrina. Com isso, entende que a demanda nesse caso “era muito mais social do que clínica”, em um país onde já se vivia grande barbárie social, “extremamente aguçada” depois do desastre natural.

Assistencialismo

Apesar do pouco tempo, o Serviço Social no Haiti atendeu 322 crianças e 367 adultos. Desta forma, a tenente analisa com cautela a concepção de certos profissionais da área que são contrários ao que chamam de “assistencialismo”, pois acredita ser extremamente necessário, principalmente em casos atípicos, na viabilização de água, comida, moradia e vestimenta. “A gente tem que atuar no emergencial, para depois pensar em auxílios mais complexos”, explicou.

Passando também por sua participação em Itaipava, na catástrofe natural que assolou a Região Serrana do Rio de Janeiro em janeiro de 2011, a tenente diz que sua equipe cadastrou 1600 famílias para terem acesso a doações e serviços básicos. Para usufruir do aluguel social, já que várias residências foram perdidas com as chuvas, 800 famílias foram catalogadas. A partir desses casos, a tenente Sabrina Zacaron afirmou que ainda há necessidade de “sistematização da prática do serviço social em grandes calamidades e produção de conhecimento sobre”, tanto para prestar melhor auxílio à vítima como ao trabalhador envolvido nas tragédias, como bombeiros e militares.

Cláudia Barboza, assistente social da Secretaria Municipal de Nova Friburgo, concorda com a tenente Sabrina Zacaron no que diz respeito ao assistencialismo. “Ainda vivemos em um país com grande desigualdade social. Num país assim, não se tem como não trabalhar com assistencialismo, principalmente em situações de calamidade”, declarou.

Afirmando que a tragédia de Nova Friburgo atingiu toda a população, desde os mais pobres aos mais ricos, Cláudia diz que havia na cidade apenas quatro assistentes sociais para uma população de 182 mil habitantes, com 20 mil desalojados. “Todas as pessoas nessa situação saem de seu perfil normal, ficam traumatizadas”, analisou. Por isso, entende como prioritária a necessidade de separar homens de mulheres nos abrigos, “mesmo os com vínculos consanguíneos”, prevenindo abuso sexual, e cuidar dos órfãos para que não haja tráfico humano. 

Cláudia acredita, ainda, que o profissional de Serviço Social deve se superar emocionalmente para trabalhar em situações desse tipo, para poder melhor atender à sociedade que dele necessita.