A universidade e seus lugares de memória

 Os lugares de memória da universidade. Esse foi o tema do II Seminário Memória, Documentação e Pesquisa realizado pelo Sistema de Bibliotecas e Informação (SIBI), nos dias 15 e 16 de abril. 

O evento aconteceu no Salão Dourado do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ (FCC), e contou com Conferências, mesas-redondas e debates. No Seminário foi anunciado também o lançamento da página eletrônica do Projeto Memória SiBI-UFRJ.

Segundo Antônio José Barbosa de Oliveira, historiador e pesquisador do Projeto Memória do SiBI, o seminário faz parte de uma linha de seminários que o Projeto Memória do SiBI realiza anualmente, chamada Memória, Documentação e Pesquisa. “A proposta deste ano é apresentar alguns lugares de memória da UFRJ. Nossa Universidade é muito grande e tem o problema da fragmentação, além de ser uma instituição cuja história é razoavelmente longa. Num único seminário não é possível, portanto apresentar todos os lugares de memória da Universidade. Pretendemos então, neste e no próximo ano, convidar pessoas, profissionais, pesquisadores que trabalham em diversos arquivos, bibliotecas, centros de documentação na UFRJ para apresentar esses lugares”, conta o pesquisador.

Em 2007, seguiu-se ao I Seminário o lançamento do livro, organizado por Antônio de Oliveira, “A Universidade e os múltiplos olhares de si mesma”, pontapé inicial para uma série de publicações focadas na história e memória da UFRJ.  “A partir do Seminário deste ano vamos lançar o segundo livro, de forma que no decorrer dos anos tenhamos uma série de publicações como ainda não se teve na Instituição, com os mais diferentes enfoques e formações, para que, numa perspectiva de multidisciplinaridade, possamos coletar e sistematizar um pouco mais essa rede de memórias tão dispersa em nosso meio acadêmico”, afirma o historiador, lembrando que o evento de hoje e amanhã está organizado em quatro áreas temáticas, que são Memória e Patrimônio, Memória e Arquivos, Memória, Bibliotecas e Coleções Especiais e Memória e Arquitetura. Para cada tema, está programada uma conferência de abertura, seguida da apresentação de uma mesa-redonda.

Nesta quarta (16), segundo dia do Seminário, houve a conferência “Memória e Arquivos”, ministrada por Marieta de Moraes Ferreira, do departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ e do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV). Em sua fala, Marieta fez um estudo sobre a importância do arquivo pessoal como documento histórico, focando em especial a implantação do curso de história na Universidade do Distrito Federal e na Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil.

- Os arquivos são fundamentais para a preservação da memória, pois, a partir do uso e conservação dos mesmos, podemos resguardá-la e escrever a história dos eventos, instituições e indivíduos – afirma a conferencista, resgatando o tema de sua apresentação, que são os arquivos pessoais. “Esse indivíduo, que se propõe a preservar um conjunto de documentos de diferentes características textuais e iconográficas, tem em geral uma intencionalidade: produzir e definir uma organização. Conseqüentemente, isso reflete como uma escrita de si, com a produção de uma determinada visão e memória desse indivíduo”, conta a professora.

Para a pesquisa, Marieta Ferreira partiu da análise dos arquivos pessoais de Gustavo Capanema, sob a guarda do CPDOC/FGV, conhecido por sua longa trajetória política, principalmente por sua atuação como ministro da Educação e Saúde Pública em 1934 e por suas relações com a Universidade do Brasil, e também de Luiz Camillo de Oliveira Neto, cujos arquivos estão na Casa de Rui Barbosa, cuja história entrelaça com a Universidade do Distrito Federal. “Os estudos específicos, a partir dos arquivos sobre essas instituições, são de grande importância para as diferentes áreas de conhecimento”, destacou a professora, lamentando a falta de dados sobre muitos professores do departamento de história dessas universidades. “Temos professores formados em diferentes épocas, que permitem diferentes visões dos acontecimentos”, disse, finalizando sua fala: “A grande importância dos arquivos, portanto, é que possamos não apenas preservar a memória, mas resgatar a história”.

Em seguida, Diana de Souza Pinto, do Programa de Pós-graduação em Memória Social da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), abriu a conferência “Memória, Discursos e Instituições”. Diana partiu da análise discursiva de uma cerimônia de formatura da Faculdade de Música da UFRJ. “A caracterização do discurso como institucional é o desempenho de nosso papel social”, afirmou a especialista. Entre estes discursos institucionalizados, estão documentos escritos, como atas, memorandos e declarações, e orais, como aulas, reuniões e conversas informais sobre o lugar de ensino. “Todos esses tipos de discurso formam a memória da instituição”, explica a professora, que concluiu: “não existe lembrança fora da relação social, da sociedade. Lembrança e linguagem, portanto, são indissociáveis”.

Ainda no período da manhã, a mesa redonda “Universidade, bibliotecas e coleções especiais”, sob a coordenação de Mariza Russo, coordenadora do Curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (CBG/FACC) da UFRJ, conta com a participação de José Tavares, da Biblioteca Pedro Calmon, que fala sobre a coleção Afonso Carlos Marques dos Santos; Cristina Jardim, da Biblioteca do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFRJ, sobre a coleção Anísio Teixeira; e André Cardoso, da Escola de Música, sobre as coleções especiais da instituição.

A conferência Memória e Arquitetura ministrada por Maria ângela Dias, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/UFRJ), e a mesa redonda presidida por Beatriz Resende, coordenadora do FCC, fecharam, já na parte da tarde, as atividades do evento.

Maria Ângela exibiu fotografias de prédios da UFRJ, como o da Escola de Música, o do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) e o da Antiga Escola de Eletrotécnica, afim de mostrar as atuais e antigas, no caso de terem sido submetidos à recuperação, condições de conservação de tais construções tombadas.

Além disso, durante sua conferência, ela abordou assuntos como a falta de profissionais, a falta de recursos próprios na área e a dificuldade de construção de um Centro de Estudos, Memória e Uso Qualificado do Patrimônio Cultural da UFRJ.

Já a mesa redonda, que tinha como temática A Universidade, Memória Institucional e Social, foi aberta com Maria Lourdes Fávero falando sobre o PROEDES (Programa de Estudos e Documentação Educação e Socidade), sua história e curiosidades, como por exemplo, a dificuldade que seus criadores tiveram de encontrar-lhe uma boa sigla.

Logo depois, foi a vez de Ana Maria Ribeiro discorrer sobre o SINTUFRJ (Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFRJ), especialmente sobre os servidores técnico-administrativos em educação e sua trajetória, partindo da sua organização em meados dos anos 1960. Por último, a questão levantada foi sobre os arquivos de cultura contemporânea que o PACC (Programa Avançado de Cultura Contemporânea) possui.

O primeiro dia de Seminário

A mesa de abertura contou com a presença de Denilson Lopes, superintendente de difusão cultural do FCC, Paula Mello, coordenadora do SiBI, Ângela Uller, pró reitora de Pós-graduação e Pesquisa, Aloísio Teixeira, reitor da UFRJ, e Antônio de Oliveira. O pesquisador do projeto Memória expôs a importância e os motivos dessa discussão, abrindo em seguida espaço para os demais convidados que congratularam a iniciativa, como destaca o reitor: “Não poderia haver local mais apropriado para o seminário no qual reverenciamos os lugares de memória da Universidade, do que o Salão Dourado. Aqui, sob a estátua de Dom Pedro II imberbe, e olhando para a estátua do provedor da Santa Casa, que doou este terreno ao Imperador para que aqui fosse construído um asilo psiquiátrico, o hospital D.Pedro II. Essas estátuas já estavam aqui quando Pedro Calmon assegurou esse espaço para a Universidade do Brasil, no final dos anos 40, e foram preservadas até hoje como símbolo de continuidade da história deste espaço, que é um lugar de memória”, contextualiza o professor.

- Acredito que nós vivemos hoje na Universidade Pública Federal Brasileira, em particular na nossa UFRJ, o momento único de nossa história, em que a possibilidade de realizarmos um Seminário como esse, em que voltamos nossos olhos para a memória, e, portanto para o passado, é também a possibilidade que temos de olharmos para o futuro, ou ao menos tentar. Passado e futuro se ligam por aquilo que é mais fugidio, o conceito de presente – afirma Aloísio Teixeira, referindo-se em seguida à conquista de espaços individuais na história da Universidade e seus êxitos, em contraposição ao que ele denomina macro-história da UFRJ. “Quando medimos o que fazemos tendo idéia da eficácia social da nossa ação, devemos reconhecer que estamos muito longe de uma história de êxitos. A Universidade que temos ainda hoje, ainda é uma universidade de elite, num país carente de educação, de iniciativas renovadoras, de uma instituição de ensino superior que seja capaz de abrigar mais jovens do que hoje podem ter acesso a uma universidade”, afirma o reitor da UFRJ, ao que completa:

- Nós temos que olhar para o amanhã e decidir se será uma reprodução do passado, de pequenas histórias de êxito, ou se esse amanhã será de uma Universidade nova, aberta, democrática, crítica e humanista, capaz de se defrontar e resolver o problema da integração dos conhecimentos e da universalização do ensino superior. Que o Seminário possa contribuir não apenas para a consciência do que fomos, mas também criar uma nova consciência do que ainda podemos ser como Universidade -, finaliza Aloísio Teixeira.

Após a mesa de abertura aconteceu a conferência “Memória e Patrimônio” com a presença de Manoel Luiz Salgado Guimarães, professor do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e do Instituto de Filosofia de Ciências Sociais (IFCS-UFRJ), seguida da mesa redonda “Universidade, memória e museus”. Na parte da tarde, “Universidade, memória e arquivos” é tema da mesa redonda mediada por Adelina Maria Alves Novaes e Cruz, bibliotecária do SiBI e museóloga.

Documentos que contam histórias

Na parte da tarde do dia 15, foi realizada uma mesa redonda com o tema “Universidade, memória e arquivos” com a presença de Elizabeth Martins do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/UFRJ), Elina Pessanha do Arquivo da Memória Operária (AMORJ) do Instituto de Filosofia e Ciencias Sociais (IFCS/UFRJ) e Maria da Luz Barbosa Gomes e Sandra Cristina do Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN/UFRJ).

Na mesma oportunidade, Antônio José Barbosa de Oliveira lançou o site do Projeto de Memória SiBI - UFRJ (Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ), do qual ele é responsável. Nesta página é possível encontrar informações breves da história da universidade, vídeos com imagens de seminários anteriores e ainda discursos históricos e institucionais, como o de Getúlio Vargas e o da posse do segundo mandato de Aloísio Teixeira.

Elizabeth Martins exibiu, na ocasião, um quantitativo ilustrado do núcleo, no qual ela ajudou a reorganizar. Entre os projetos exibidos, estavam o de alunos da Escola de Belas Artes (EBA) e da Faculdade de Arquitetura E Urbanismo (FAU), todos os documentos recuperados por ela.  Também foram mostrados trabalhos realizados por Ulysses Bularmarqui, Francisco Bologna, Jorge Machado Moreira e Carlos Leão. A palestrante destacou que o núcleo acabou de receber um pequeno acervo dos irmãos arquitetos M M Roberto. Grande parte dos acervos está catalogada.

Elina Pessanha frisou a importância de eventos como esse, pois é uma ótima oportunidade para a divulgação e valorização do seu trabalho no AMORJ. Ela destacou que o arquivo político carrega uma especificidade e uma paixão que contamina quem lida com essa área. A maioria dos atores destes documentos tende a registrar tudo de sua trajetória. Um problema que surge para os profissionais que realizam este trabalho é conciliar a paixão de suas idéias e com a razão da ciência. “Esta universidade se apresenta como um espaço privilegiado para a diversidade, há um respeito pelas diferenças” disse Elina.

O arquivo de Memória Operária apresenta uma biblioteca virtual,com destaque para os documentos de Evaristo de Moraes Filho, que cedeu alguns de seus arquivos pessoais para serem digitalizados e disponibilizados a qualquer pessoas que acesse o site.

A professora Maria da Luz Barbosa Gomes contou toda a história da Escola Anna Nery, mostrando as fotos das primeiras diretoras norte-americanas. Ela explicou que todo o acervo foi organizado por enfermeiras da própria escola. Todos os documentos foram transformados em séries, como por exemplo “As Excluídas”, que conta como algumas alunas forma convidadas a deixar a escola; existe também uma série com obras raras e preciosas para a enfermagem.

Sandra Cristina Demétrio de Moraes, técnica responsável pelo acervo, contou que passou um ano só observando toda a documentação existente. Ela enfatizou que a unidade tem uma grande preocupação em preservar sua memória, apesar de não possuir modernas técnicas.

Ao final da mesa, os participantes ainda puderam esclarecer algumas dúvidas com os palestrantes.

Programação

Amanhã, dia 16 de abril, Marieta de Moraes Ferreira, do Departamento de História do IFCS, aborda o tema “Memória e Arquivos”, seguida por Diana de Souza Pinto, do Programa de Pós-graduação em Memória Social da Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), com a conferência “Memória, discursos e Instituições”, e da mesa redonda “Universidade, bibliotecas e coleções especiais”. No período da tarde, Maria Ângela Dias, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, apresenta a conferência “Memória e Arquitetura”, acontecendo logo depois a última mesa redonda do evento, “Universidade, memória social e Institucional”. Todas as mesas são acompanhadas de debate.