Campanha contra o racismo reuniu pesquisadores e ativistas

Após quase um mês de encontros, rodas de conversas, palestras e várias atividades, chegou ao fim a primeira edição da campanha 21 Dias de Ativismo contra o Racismo, que aconteceu de 6/3 a  27/3, no Rio de Janeiro e em outras 17 cidades. O evento de encerramento foi realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), primeira universidade do estado a ter cotas raciais, como um apoio às universidades e escolas técnicas estaduais, que vêm passando por uma grave crise, devido aos problemas financeiros do Estado.

O encontro contou com a mesa de debate As Ações Afirmativas e a Precarização das Universidades Públicas. Os debatedores foram o advogado e professor Renato Ferreirae a professora e coordenadora da Coordenadoria de Articulação e Iniciação Acadêmicas (Caiac) da Uerj, Elielma Machado. Já a moderação ficou a cargo da psicóloga da UFRJ Luciene Lacerda, que também atuou na Comissão Executiva da campanha.

Elielma apresentou alguns dados da Caiac sobre a assistência dada a estudantes beneficiários das políticas de reservas de vagas. Destacou-se o que os cotistas estão divididos em todos os cursos, havendo maior expressividade nos cursos de Engenharia. Atualmente, cerca de 10 mil alunos com matrícula ativa entraram na universidade com algum tipo de reserva de vagas, numa realidade de cerca de 27 mil alunos. O advogado Renato Ferreira ressaltou que a política de cotas está em construção e que os negros precisam ser os protagonistas desse processo. “Precisamos publicar mais em todas as áreas, nas engenharias, nas áreas jurídicas, sobre gênero e raça. As mulheres negras têm muito a dizer”, defendeu ele.

Além do debate, também foram apresentados vídeos documentais do Cultne, acervo digital da cultura negra, sobre a participação do Brasil na Conferência Mundial contra o Racismo (2001); passeatas do Dia da Consciência Negra da década de 80, entre outros. Depois, houve uma roda de samba com o grupo que se apresenta às segundas-feiras na Pedra do Sal. Para Luciene, foi emocionante encerrar a campanha após ver o começo de muitas parcerias e trocas entre pessoas que não se viam e não se conheciam, mas que discutiam o mesmo tema. “Esse dia não poderia deixar de ser na Uerj. É um abraço e a fala de que estamos todos nessa luta, mobilizados em defesa dessas instituições.”

21 dias

A ideia da campanha surgiu da própria Luciene que, ao lembrar do dia 21 de março, Dia Internacional da Luta contra a Discriminação Racial, marcado pelo massacre de Shapperville, na África do Sul, pensou em fazer algo similar aos 16 Dias de Combate à Violência contra a Mulher. A partir do contato com um grupo inicial de sete pessoas, o evento foi se estruturando e ganhando corpo, até contar, atualmente, com mais de 200 pessoas envolvidas.

Durante toda a campanha, aconteceram diversas atividades da Educação em universidades, escolas e creches, como contação de histórias, discussões sobre o feminismo negro, saúde da população negra, bem como debates sobre racismo na universidade. Além disso, teve destaque a aula magna proferida em 21/3 pelo cantor, compositor e escritor Martinho da Vila, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS). Neste mesmo dia, foi feito um pedido formal para que Martinho se torne Doutor Honoris Causa pela UFRJ, uma proposta feita por alunos e professores da instituição.

Para a idealizadora, a avaliação da campanha é positiva, principalmente porque contou com o apoio institucional. “É importante que tenhamos tido o reitor e a vice-reitora da UFRJ, Roberto Leher e Denise Nascimento, respectivamente, se colocando e fazendo parte dessa discussão, colocando a universidade como a instituição que busca que esse debate se estabeleça. Muita gente estava, de alguma forma, querendo que esse tipo de discussão acontecesse”, concluiu Luciene.