Confira o segundo relato da série “Pessoas da UFRJ”

A Coordenadoria de Comunicação (CoordCOM) da UFRJ publicou nesta sexta-feira, 15 de julho, na página oficial da universidade,  a segunda postagem da série "Pessoas da UFRJ". Dessa vez a história é de Hadi Bakkour, refugiado de nacionalidade síria e aluno do curso de Direção Teatral.  Com o objetivo de publicar histórias marcantes de pessoas que fazem e fizeram a história da universidade, os relatos serão publicados na rede social e em outros canais. 

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Confira abaixo o relato de Hadi:

Meu nome é Hadi Bakkour, tenho 21 anos e sou do primeiro período de Direção Teatral. Nasci em Aleppo, na Síria. Ser refugiado, especialmente no Brasil, que é um país grande, é ser uma pessoa perdida. No começo da guerra, estava fazendo vestibular e, quando acabei, ainda antes de entrar na faculdade, a situação já estava bem ruim. Começaram a bombardear perto do nosso bairro. Como tenho uma meia-irmã brasileira e estava na idade do serviço militar, viemos para o Brasil.

É difícil sair de lá porque não tem aeroporto mais na Síria. Então fomos pra Turquia, pegamos o visto. Chegamos aqui, fiquei alguns meses e não aguentei. Chorava toda noite. Quando voltei, fiquei um tempo no Líbano. Depois, ao voltar pra Síria, entrei na faculdade de Administração de Empresas e fiquei estudando até que a situação piorou mais ainda, ficava caindo bomba no nosso bairro mesmo. Não tinha como viver normalmente. Antes da guerra, Aleppo era uma cidade bem rica, a situação era bem confortável, muito segura. Lá uma mulher andava com ouro no pescoço às 3 horas da manhã. Ninguém mexia com ninguém. Sinto falta disso. Mas não é só falta, é tristeza. A minha cidade mudou pra algo muito ruim. Nunca em Aleppo teve uma pessoa morando na rua. O mais pobre tinha a casa e a comida dele. Agora você vê o mais rico quase sem conseguir comer. 

Até hoje evito deitar para dormir sem estar com sono. Quero dormir rápido para não ficar pensando. Na hora de deitar você sente as memórias. Lembro do carinho da minha mãe, da casa, da rua, do meu melhor amigo que era meu vizinho e ainda está lá. Já perdi três amigos próximos na guerra. Um estava contra o governo e por isso mataram ele. O outro estava ajudando o governo, mataram o grupo dele e ele sumiu. O terceiro também era a favor do governo, mas não sei o que ele fez, ninguém sabe. Foi preso pelo governo e depois de uns meses morreu lá dentro de tanta violência. Também teve um amigo que, num dia em que eu não estava na faculdade porque faltei, caiu uma bomba na nossa sala. As pedras acertaram o peito dele, chegou a ser levado pro hospital, mas acabou morrendo.

Tem uma coisa da nossa cultura que acho bem diferente daqui. Lá, até antes da guerra, se alguém gritava socorro, todo mundo corria pra ajudar. Aqui todo mundo corre pra longe. Quando estoura uma bomba, você corre para ajudar, não corre para fugir. Quando um prédio cai, você não pode ir correndo pro centro porque pode pisar em alguém. Então você tem que começar a tirar as pedras pelas bordas enquanto escuta gritos no meio. Seu corpo está tremendo, você está tirando pedras e escutando gritos, mas não pode ir até eles. E aí, depois, você volta pra casa assim, olhando pra parede, olhando pro teto. Tem muita gente enlouquecendo lá, o que não é difícil nessa situação. Tem muita gente se matando, muita gente fugindo sem querer saber de mais nada. Muitas vezes eu voltava pra casa e ficava me perguntando o porquê de estar acontecendo isso. Minha mãe ficou lá. A gente está tentando trazer ela, mas é bem complicado. Se você larga a casa hoje, vai perder ela amanhã. Minha mãe não tem muito, ela é feliz com poucas coisas, especialmente com a casa. Cada pedaço da casa, cada coisinha pequena que ela comprou tem uma memória. 

Às vezes, quando algumas pessoas descobrem que eu vim da Síria, perguntam por que eu saí. Percebo que existem pessoas que não estão sabendo de nada do que acontece em meu país. Não é culpa delas, mas machuca muito. Isso é muito triste. Não esperava que todo mundo estivesse lutando por nós, mas você não precisa de muita coisa pra saber o que está acontecendo na Síria. Não é a historia da minha família que aconteceu lá no Oriente Médio que você não sabe, é a história de um país. Mais de seis milhões de refugiados pelo mundo, num país de apenas 24 milhões de habitantes. Mais de 500 mil mortos, a grande maioria civis. Na Europa, falam que precisam de pessoas imigrando, mas quando você vai ao consulado ninguém aceita. Falam que você tem que ir pelo mar para você morrer ou conseguir chegar lá. 

Quando voltei para o Brasil, comecei a estudar português no Clac [Curso de Línguas Aberto à Comunidade] da Letras e aprendi a falar o idioma rápido. Então fui trabalhar num restaurante e aprendi a cozinhar comida árabe aqui [risos]. Quando comecei as aulas, o trabalho passou a ficar muito apertado e saí de lá. Hoje ajudo amigos a vender comida árabe. O governo não ajuda em nada, o único lugar que está recebendo refugiados pra dormir e dar comida é a Igreja São João Batista. Quando cheguei no Brasil, vi que tinha muitos moradores na rua. Se é um país com tanta gente morando na rua, como é que vai me ajudar? O Brasil é bonito, para passear eu me sinto no céu, não existe isso em outros países. Mas também tem muita coisa ruim. Aqui é fácil ter amigos, não tem isso de não querer se aproximar por eu ser árabe, é só você ser legal que faz amigos e tem relacionamentos com as pessoas. 

Estou gostando do curso de Direção Teatral. Os professores são ótimos. Uma coisa legal da UFRJ, além de ser uma universidade importante, é que os alunos parecem ter muito orgulho de estar nela. Quando o aluno sai com orgulho conta ponto para a universidade.  As aulas são bem diferentes. Na Síria, o aluno nunca vai entrar atrasado ou comer em sala. Várias vezes olho pro professor e me pergunto “tem certeza que isso não está incomodando?”. Aqui também é normal sentar esparramado com o pé virado pros outros. Lá é falta de respeito. 

Para o meu futuro, tenho muitos planos. Se o meu país voltar à paz, quero levar essas ideias do teatro daqui para lá e misturar os dois. O povo daqui precisa aprender várias coisas da nossa cultura e o nosso povo também está precisando de muita coisa daqui. O teatro, pra mim, serve para ajudar as pessoas. Não é só olhar e rir ou assistir histórias, é muito maior que isso. O importante é apresentar as ideias que doem. Se o teatro não tocou num assunto forte, ele não vai resolver. Como a gente fala em árabe: “é pra mexer onde está machucado”. É pra doer, mas pra consertar.

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Entrevista por Iana Faini

Edição: Jean Souza

Revisão: Gisele Bechtlufft

Fotografia: Clarita Castañon

 

Confira a primeira reportagem da série:

Ivan Hidalgo