Momento de autorreflexão na UFRJ

Mesa de abertura - Foto: Raphael Pizzino

A Universidade Federal do Rio de Janeiro está na contagem regressiva para o seu aniversário de 100 anos, em 2020. A proximidade de uma data tão emblemática despertou a necessidade de reflexão. Por isso, em seus 97 anos, a UFRJ convidou os setores que a compõem, e com os quais se relaciona, para voltar seus olhares para a instituição e pensar história, desenvolvimento e democracia.

O convite foi aceito com um total de 354 trabalhos, divididos em 73 palestras que abrangeram dez eixos temáticos. Estudantes, docentes, técnicos-administrativos, terceirizados, ex-alunos, aposentados, representantes de movimentos sociais e comunidades do entorno da Cidade Universitária dialogaram sobre os lugares, saberes e fazeres da Universidade.

A pluralidade foi a tônica de todo o Seminário. Na mesa de abertura, estiveram presentes  representantes de associações de trabalhadores da UFRJ, do DCE Mario Prata e das Pró-Reitorias, saudando a iniciativa e lembrando aos presentes as contribuições de cada grupo na construção da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Desafios do passado, ousadia para o futuro

O reitor da Universidade realizou a primeira conferência do Seminário com o tema UFRJ: Desafios da História. Roberto Leher rememorou como a UFRJ ocupou lugar de destaque no cenário nacional  desde a sua criação e o papel da instituição como criadora de possibilidades de mudança: “Nossa instituição tem demonstrado, ao longo do tempo, que, mesmo em condições muito duras e adversas (...), a Universidade cresceu, se enrobusteceu e passou a agregar áreas de produção do conhecimento que possibilitam aos nossos estudantes algo absolutamente único no país, conferido pela intensidade da UFRJ, que são os percursos de aprendizagem que os nossos estudantes podem ter”.

Segundo o reitor, o Brasil passa por uma encruzilhada histórica e a participação da Universidade é imprescindível. “Temos, hoje, desafios muito delicados e definidores do futuro do país, como é a questão da educação basica, da saúde pública, tanto na área da pesquisa quanto nas políticas públicas. Diante de tantos desafios, certamente a ousadia intelectual que caracteriza a UFRJ vai ser mais necessária do que nunca”, afirmou Leher.

Mesa de decanos - Foto: Diogo Vasconcellos

A necessária autocrítica

No segundo dia de Seminário, representantes dos centros de Ciências e Artes da Universidade e do Fórum de Ciência e Cultura discutiram o atual estado da Universidade. A preocupação com a precarização da educação superior esteve presente nas falas de todos os componentes da mesa.  Para Fernando Ribeiro, decano do Centro de Tecnologia, a Universidade “vive de heróis. Parece que a UFRJ tem uma força vital que é invencível. Por pior que seja a crise que a gente tenha, sempre aparece alguma coisa em algum centro ou alguma unidade. Alguém inventou, descobriu a cura, fez uma patente. Temos muito a comemorar. O saldo é positivo, mas precisamos ter autocrítica”.

Carlos Vainer, coordenador do Fórum de Ciência e Cultura, prosseguiu com a reflexão sobre as comemorações. “Não podemos ficar apenas em uma posição apologética e autocelebratória. Temos que lançar um olhar crítico para o nosso passado, um olhar crítico para o nosso presente,  se quisermos construir uma Universidade diferente daquela que herdamos de uma sociedade brutal e desigual. A Universidade, na sua história, refletiu essa desigualdade, mas também é luta e resistência”, afirmou Vainer.

A integração cada vez maior entre os núcleos de pesquisa, unidades e centros foi apontada como necessidade para superar os desafios que se apresentam, como apontou Marcelo Correa e Castro, representante da Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ: “O que a gente precisa é aprender a viver juntos. Ninguém vai dar conta de conhecimento nenhum, não importa a ciência, se ficar apenas no microscópio olhando para o seu vidrinho. O pesquisador precisa olhar para o seu vidrinho. O que falta é ele conversar com as outras pessoas que também estão olhando para os seus vidrinhos, que fazem outras abordagens (...) A Universidade precisa aprender a fazer esse movimento de sair de suas caixinhas e viver coletivamente”.

Diálogos para a defesa do interesse público

Dentro da centena de trabalhos apresentados foi possível encontrar sugestões de respostas para os problemas apontados. Como foi o caso da primeira sessão temática do eixo Política, Autonomia, Democracia e Desafios. Colaborar para o diálogo entre a Universidade e a sociedade é a proposta do trabalho Construindo uma Política de Comunicação, uma iniciativa do corpo de profissionais que trabalham com comunicação na UFRJ.

O objetivo é a criação de uma política pública e democrática sobre comunicação dentro da universidade pública. “Nesse momento de desmonte do Estado e de retirada de direitos, discutir a comunicação que a UFRJ quer e precisa é fundamental. No sentido de que é preciso divulgar, informar e disseminar o conhecimento aqui produzido, dentro e fora da Universidade”, disse Pedro Barreto, jornalista e representante do grupo de trabalho que está elaborando a proposta de política de comunicação. “Debater amplamente essa política com toda a comunidade universitária, e com atores sociais fora dela também, é muito importante para que o interesse público seja reforçado”, afirmou Pedro.