Prêmio Nobel da Paz homenageia Marielle Franco em evento na UFRJ

Adolfo Pérez Esquivel foi convidado pelo Fórum de Direitos Humanos, que reúne instituições universitárias e científicas do Rio

O Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, participou na segunda-feira (16/4) de um evento organizado pelo Fórum de Direitos Humanos, que reúne universidades, movimentos sociais e instituições científicas do Rio de Janeiro. 

Na Faculdade Nacional de Direito (FND), o ativista argentino demonstrou preocupação com a democracia em países da América Latina e do mundo e também fez uma homenagem à vereadora Marielle Franco e ao seu motorista, Anderson Gomes, assassinados no mês passado. 

“São companheiros que deram suas vidas para dar vidas. Não são mortos, são sementes de vida. Isso é importante, porque os exemplos se multiplicam”, disse Esquivel. Ele afirmou que a vereadora foi um exemplo de “resistência e dignidade humana”.

O ganhador do Nobel afirmou que desde os anos 1970 acompanha os movimentos sociais no Brasil e comentou a situação dos países da região. “Hoje, a América Latina e o mundo estão num caos terrível”, afirmou, ao lembrar-se da guerra na Síria e dizer que diversos países vivem golpes de estado e “ditaduras encobertas”. 

Segundo o ativista, os países latino-americanos têm passado por uma mesma “metodologia” contra a democracia, que se repetiu, nos últimos anos, em Honduras, Paraguai e também no Brasil, com a deposição de Dilma Rousseff. “Esta metodologia tentaram também contra os presidentes Hugo Chávez [Venezuela], Rafael Correa [Equador] e Evo Morales [Bolívia]”, afirmou. 

Roberto Leher, reitor da UFRJ, afirmou que o Fórum de Direitos Humanos foi criado para as universidades “organizarem a cronologia da barbárie” no país. “O povo, os jovens negros, os expropriados em geral continuam sendo vistos como as classes perigosas”, criticou.

Nísia Trindade, presidente da Fiocruz, destacou a importância do trabalho que vem sendo feito com universidades e instituições de pesquisa no Fórum de Direitos Humanos. “Este é mais um evento para recuperarmos a nossa esperança e força em defesa da justiça e dos direitos humanos” afirmou. 

Ao abrir o evento, Roberto Leher disse que Esquivel traduz o pensamento crítico e emancipatório da América Latina. Para o dirigente, a presença do ativista argentino no Brasil é um ato político e ético em um momento de profunda incerteza em relação ao futuro da democracia.

Favela, negritude e movimentos sociais  

Assessora de Marielle Franco, Mônica Francisco disse que o mandato da vereadora tinha, basicamente, três pilares de atuação: “favelas, gênero e negritude”. Ela frisou que Marielle enfrentava diariamente o preconceito de classe, a misoginia e o racismo. 

“A incerteza da própria sobrevivência acompanha os que nascem negros e pobres durante toda a vida. A morte de corpos negros não constrange o Estado brasileiro. Estamos no lugar onde a Lei Áurea foi assinada, mas o assassinato de Marielle Franco é a prova de que a abolição da escravidão não foi concluída”.

Alice de Marchi, da Justiça Global, denunciou o desmantelamento da política de direitos humanos no Brasil. “É importante lembrar que o Rio de Janeiro está sob intervenção militar e o Brasil é um dos países que mais mata ativistas de direitos humanos do mundo”, completou. 

A professora Kone Cesáreo, vice-diretora da FND, ressaltou a importância da presença de Esquivel em uma instituição que, historicamente, sempre esteve à frente das lutas pela liberdade e dignidade da pessoa humana. 

Gisele Martins, comunicadora e moradora da Maré, afirmou que o número de moradores das favelas do Rio é negligenciado pelas estatísticas oficiais. Segundo ela, uma forma para o Estado não levar direitos aos moradores. “A gente briga todos os dias pelos nossos direitos. E o principal pelo qual a gente briga é o direito à vida”, denunciou. 

As falas dos movimentos sociais e de representações das favelas foram um pedido de Esquivel para conhecer melhor a situação do Rio e do Brasil. Grupos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também participaram do evento e lembraram a grande quantidade de trabalhadores do campo e ativistas mortos.

Clique para assistir ao vídeo com a íntegra do evento

Ao final do evento, Esquivel homenageou Mônica Benício e Agatha Reis, viúvas de Marielle e Anderson, que se manifestaram com emocionados discursos. De acordo com Mônica, “mulheres negras, homens negros, mulheres em geral, comunidade LGBT, população da favela e periférica encontraram no rosto da Marielle um símbolo”. “Suas mortes mostram a banalização da violência e da vida”, apontou Agatha.  

Aula magna nesta quarta

Nesta terça-feira, Esquivel visitou a comunidade da Maré e, amanhã, realizará a aula magna da UFRJ, abrindo oficialmente o ano letivo da instituição.

fotos de Raphael Pizzino - CoordCOM/UFRJ