Museu Nacional realiza aulas abertas sobre línguas indígenas

Horto Botânico do Museu Nacional. Foto: Raphael Pizzino

O setor de Linguística do Museu Nacional (MN) realiza, até 30/11, o curso básico de línguas indígenas brasileiras. As aulas estão abertas a qualquer pessoa interessada e ocorrem todas as sextas-feiras, das 14h às 17h, no auditório da biblioteca do Horto Botânico, na Quinta da Boa Vista.

A atividade de extensão dá atenção especial às línguas da família tupi-guarani, tais como mbyá, nhandeva e assurini. Durante o curso, são apresentadas a gramática, o discurso e a visão de mundo de cada povo. Também são fornecidas informações sobre como está a movimentação dessas línguas no território fluminense: se são praticadas ou se estão ameaçadas de extinção.

De acordo com Marcia Damaso, professora do MN e coordenadora do curso, a ideia é popularizar as pesquisas feitas no setor de Linguística. “O curso é para abrir um leque maior de novos pesquisadores, despertar o interesse do público geral, uma tentativa de popularizar as línguas indígenas”, afirma.

“É uma experiência boa para os ouvidos urbanos”, define a professora Marília Facó, que coordena o setor de Linguística e também participa das aulas. Segundo ela, o curso foi pensado não só para dialogar com a pós-graduação, uma vez que o setor possui mestrado profissional e especialização, mas também para atender à sociedade. “Isso muda o olhar das pessoas sobre o Brasil, suas línguas, sua gente”, complementa.

A produção e a divulgação do curso é feita pelo servidor técnico-administrativo Nicolás Alexandria. Em sua opinião, a proposta mostra que, no Brasil, não se fala somente uma língua. "Há uma diversidade linguística sem correlato no mundo, com exceção da Austrália, e desse ponto de vista somos uma referência para outros estados nacionais. Precisamos começar a compreender, valorizar e assumir socialmente as línguas indígenas brasileiras”, defende. Ele lembra que, em nosso território, há registro de mais de 180 línguas ainda em uso. “Você sabia?”, questiona.

Público

Em edições anteriores, o curso realizou inscrição e formou uma turma fixa de estudantes. Dessa vez, em razão do incêndio no Palácio Imperial de São Cristóvão e visando a reforçar a ideia de que o Museu Nacional Vive, a coordenação optou por deixar as portas abertas em todas as atividades. A cada encontro, cerca de 60 pessoas se aproximam.

Gabriel Santos Xavier, estudante do curso de Letras/Português-Japonês da UFRJ, é um dos frequentadores do curso. Ele se aproximou para conhecer melhor a estrutura das línguas da família tupi-guarani e acabou identificando semelhanças com outros idiomas. “Há muitas semelhanças com o japonês. Por exemplo, a sintaxe. Não imaginava isso”, comenta.

Professor de História do município, Bruno Santos Silva se apresenta como um apaixonado pelo estudo de línguas. Ele está na turma de 2018 do curso de extensão e acredita que iniciativas como essa deveriam ser frequentes na cidade. “Um problema que vejo é que dificilmente conseguimos encontrar os lugares para poder estudar línguas indígenas brasileiras. Temos acesso a alemão, russo, mas não a línguas que existem no nosso próprio território”, aponta.

Emiliana Coelho de Moraes, amazônida que há décadas vive no Rio de Janeiro, também acompanha as aulas. Ela quer se aprofundar nas línguas e nas culturas indígenas para contar histórias para crianças. “Sou palhaça formada pela Escola Nacional de Circo e arte-educadora. Com as informações compartilhadas no curso, terei mais propriedade para falar sobre nosso povo”, estima.

Auditório da Biblioteca do Horto Botânico. Foto: Raphael Pizzino

Programação

Até 23/11, as aulas acontecem na biblioteca do Horto Botânico. No dia 30/11, último encontro, as atividades serão realizadas no auditório Pedro Calmon do Palácio Universitário, campus Praia Vermelha. Acompanhe em detalhes as temáticas abordadas em cada sexta-feira:

9/11 – Aspectos linguísticos importantes do Guarani e suas variedades: nominalização e verbalização.

16/11 – Aspectos linguísticos importantes do Guarani e suas variedades: padrões de organização sonora e escrita.

23/11 – Aspectos discursivos. Encontros linguísticos: o encontro de falantes de diferentes línguas.  Aspectos da relação entre língua e cultura.

30/11 – Aspectos discursivos. Encontros linguísticos: o encontro de falantes de diferentes línguas.  Aspectos da relação entre língua e cultura.