Luta antimanicomial, cultura e inclusão são temas de debate na UFRJ

Evento no FCC Foto: Eneraldo Carneito/ Fórum UFRJ

O Fórum de Ciência e Cultura (FCC) realizou no dia 13/12 o encontro Loucura, Cultura e Cidade. O evento, feito em parceria com o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (Laps) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), discutiu a saúde mental e a inclusão social por meio da cultura.    Realizado no Auditório Pedro Calmon, na Praia Vermelha, o encontro contou com debates, rodas de conversa e atividades culturais com cerca de 100 participantes, entre professores, artistas, estudantes e membros da sociedade civil. Além das duas instituições, participaram também serviços e movimentos do campo da saúde mental, da luta antimanicomial e dos direitos humanos.

Na mesa de abertura do evento, Paulo Amarante, psiquiatra e pesquisador do Laps, revelou um pouco da trajetória e das ideias de Franco Basaglia, psiquiatra italiano, apontando seu papel decisivo na crítica à psiquiatria enquanto instituição segregadora e fomentadora da exclusão dos diferentes. “Basaglia sinalizou a luta antimanicomial como uma luta política”, contou. Segundo Amarante, ao fechar os manicômios e combater a exclusão tradicional, Basaglia ressignificou a loucura em sua diversidade.

Cidade, cultura e o encontro com a diferença

Integrando a mesa de abertura, o coordenador do FCC, Carlos Vainer, lembrou que a noção de cidade é essencialmente a de um espaço de encontro com o diverso. “A cidade nasce de uma percepção da tolerância com o diferente”, explica. Ele chamou a atenção para a ligação profunda existente entre cidade e sociedade, esclarecendo os reflexos dessas esferas. “A crise urbana é uma expressão da crise social como um todo, não é uma crise à parte. A violência e a intolerância que vivemos no cotidiano da nossa cidade são, na verdade, a violência e a intolerância que vivemos na nossa sociedade”, disse.

Patrícia Dornelles, superintendente do FCC e mediadora da mesa, afirmou que a luta antimanicomial pode ser entendida como parte de outras lutas por diversidade e igualdade. “É importante registrar a tarefa honrosa de contar com a parceria da Universidade da Cidadania, com a colaboração do Colégio Brasileiro de Altos Estudos, com os colegas do Ipub e os diferentes atores que aqui somam para fortalecer o debate”, completou a professora.

Em seu discurso, Dornelles manifestou o compromisso do Loucura, Cultura e Cidade com a diversidade e a defesa dos direitos humanos, “projetando-se como uma plataforma de debate, reflexões e práticas para a construção de liberdades e autonomias culturais”.

Na semana em que a Declaração dos Direitos Humanos comemorou 70 anos, o evento celebrou outras datas relevantes para a luta antimanicomial. Entre elas os 50 anos da publicação do livro A Instituição Negada, de Basaglia, e os 10 anos do edital Loucos pela Diversidade – importante iniciativa do Ministério da Cultura e da antiga Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural, conduzida por Sérgio Mamberti, que também esteve presente no evento. Esse projeto deslocou a produção cultural e artística de pessoas em sofrimento psíquico e transtorno mental para o centro das políticas culturais.

O evento teve ainda a apresentação do bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou!, formado por usuários e profissionais da rede pública de saúde mental do Rio de Janeiro. Eles abriram o encontro com uma roda de samba em homenagem à Dona Ivone Lara, com o tema “Foram me chamar, eu estou aqui!”. À tarde, a atração foi a Tribo Cia. de Teatro, do Hospital Dia do Instituto de Psiquiatria (Ipub), apresentando um trecho da peça Óbvio Voraz. À noite, fechando as apresentações, a música ficou por conta do grupo Harmonia Enlouquece e dos Cancioneiros do Ipub, celebrando Lima Barreto.