Juventude aprende a pesquisar nas férias

Fotos: Ana Marina Coutinho (Coordcom/UFRJ)

Na tarde da última sexta-feira (19/7), o pátio do Centro de Ciências da Saúde (CCS) virou palco de aprendizado e troca de experiências. De férias de suas agendas escolares, cerca de 100 estudantes, vindos de diversas regiões do país e interessados em expor o que aprenderam sobre Paleontologia, Biologia, Astronomia e Farmácia, estavam reunidos para a culminância do projeto Clubes de Ciência.

Entre 15 e 19 de julho, a UFRJ recebeu a terceira edição do evento, que teve como ponto de partida, no Brasil, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, no mundo, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade de Harvard. A ideia do Clubes de Ciência é aproximar jovens interessados em pesquisa científica e profissionais já inseridos ou experientes neste fazer. Com isso, cria-se um ambiente de partilha de conhecimento, inovação e prospecção para o futuro.

Durante uma semana, o CCS abrigou palestras, desafios e experimentos coletivos em torno de cinco grupos temáticos – ou Clubes – diferentes: Astrobiologia – a Busca de Vida no Universo; Combatendo Epidemias; Detetives do Passado – as Lições da Paleontologia; Descobrindo Novos Fármacos com Ambiente Virtual; e Entendendo a Vida Através da Genômica. Com isso, os estudantes tiveram acesso a debates que, pela complexidade, não estão na escola.

Olhos brilhantes

Selecionado entre 400 inscritos, Gabriel Balbino, do Rio de Janeiro, nunca havia visitado a UFRJ. Para ele, foi uma surpresa. “Ouvia falar que o Fundão era perigoso, mas não senti isso. Este lugar [CCS] foi bem propício para os nossos estudos”, declarou. Ele foi informado do evento pela direção do Colégio Fator, onde estuda, e não teve dúvidas sobre qual área escolheria: “Eu me inscrevi para participar do Clube sobre Astrobiologia, pois nasci para fazer coisas de natureza”.

Clarissa mostra réplicas de fósseis que fez em oficina

Durante a semana, Gabriel aprendeu a identificar se há planetas orbitando estrelas e, também, a investigar a presença de organismos no solo. Entre aulas teóricas e práticas, ele ainda participou da primeira observação aos astros da história da UFRJ feita fora do Observatório do Valongo, no terraço do novo prédio da Faculdade de Farmácia. “Entrei com uma mentalidade e estou saindo com outra. Esse foi o meu primeiro evento acadêmico e não será o único”, concluiu.

Com os olhos brilhantes, Clarissa Souza, do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), afirmou que este foi um “divisor de águas” em sua vida. “Visitamos o Museu de Geociências, participamos de oficinas, convivemos com muitas pessoas inteligentes, aprendemos a fundo vários assuntos. Quero voltar”, resumiu. Na bagagem, ela levou para Belo Horizonte réplicas de fósseis que modelou com seus colegas e instrutores, bem como o sentimento de estar próxima a uma carreira. “Quero cursar Paleontologia, Geologia ou Geografia”, apontou.

Decisão e foco

Também de Belo Horizonte, Rafaela Boaventura, do Colégio Claretiano, acompanhou as dinâmicas do Clube Entendendo a Vida Através da Genômica. Ela disse optar pela ciência que estuda os genes dos seres vivos por entendê-la como mais próxima da Medicina – o que pretende cursar na graduação. Rafaela esperou um ano para participar do evento e, uma vez  na UFRJ, aproveitou para estabelecer contatos visando a uma possível iniciação científica. “Queria me inscrever no 9° ano [do Ensino Fundamental], mas só podia a partir do Ensino Médio. Então, tive que esperar. Agora, não quero mais parar. Aqui pudemos sair de nossas bolhas, conhecer pessoas diferentes, quebrar tabus”, avaliou.

Estudantes participam de Clubes da Ciência no CCS

Veterano entre os colegas, Arthur Borges Cantanzaro, da Escola Estadual Zacarias Antônio da Silva, situada em Cotia, São Paulo, se considera um “neurocientista” e “divulgador científico” desde os 14 anos. Há dois na iniciação científica, ele também optou pelo Clube sobre Genômica por querer “entender mais sobre alinhamento e sequenciamento genético”.

Em sua opinião, outras pessoas poderiam ter a mesma oportunidade. “Tivemos uma palestra essencial sobre como fazer a própria pesquisa: como se elabora uma hipótese? Como você começa a estudar? Isso é fundamental para quem quer começar. Seria interessante se surgissem mais programas como esse para os jovens se aproximarem das ciências o quanto antes. Não só os jovens das capitais, mas também do interior, das periferias”.

Transformação

Professora da Faculdade de Farmácia da UFRJ e anfitriã do evento Clubes de Ciência no Rio de Janeiro, Alessandra Souza considerou o projeto uma oportunidade para abrir as portas da Universidade e estimular a juventude a estudar, mesmo nas férias. “Fui convidada a participar no ano passado, em Belo Horizonte. Trouxe o evento para UFRJ neste ano e, em 2020, já combinamos que o realizaremos aqui novamente”, anunciou.

Para ela, a iniciativa tem um potencial transformador. “A ideia é fazer com que os alunos vivenciem a vida científica conosco. É bom para eles e para nós. No início, achei exagerado dizer que os Clubes mudam a vida das pessoas. Hoje, concordo: mudam mesmo”, observou.

Pesquisadores da UFRJ, UFMG e Fiocruz organizaram o evento

Rede

“Clubes de Ciência” é também o nome de uma organização fundada em 2014 por pesquisadores mexicanos que frequentavam universidades estadunidenses (MIT e Harvard). Em um ano, o projeto alcançou mais de quatro mil estudantes bolivianos e colombianos. Em 2017, chegou ao Brasil. Atualmente, é realizado também no Paraguai e no Peru.

Conforme o site oficial, o propósito do grupo é “expandir o acesso ao ensino de ciências de alta qualidade” e inspirar “as futuras gerações de pesquisadores por meio de uma rede de colaboração científica”. Assim, à medida que os Clubes vão sendo realizados, mais instituições podem aderir e oferecer novos cursos.

A rede em formação tem como meta, até o próximo ano, incorporar mais cinco países e alcançar até 40 mil estudantes. Além da UFMG e da UFRJ, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também integra a iniciativa.