Rumo ao centenário: quais os sentidos da comemoração?

Cidade Universitária em 1969. Imagem: Arquivo Nacional

Teve início na quinta-feira, 12/9, o projeto comemorativo da UFRJ, que em 2020 completará 100 anos de criação. Neste próximo ciclo, a Universidade promoverá diversas atividades que destacam esse centenário. Mas o que se tem a comemorar? A pergunta foi lançada por Marieta de Moraes Ferreira, historiadora e professora titular aposentada da UFRJ, durante o X Seminário Memória, Documentação e Pesquisa, realizado nos dias 4 e 5/9 na Praia Vermelha. Marieta ministrou palestra justamente sobre os sentidos da comemoração.

Conforme disse a professora, comemorações são “formas de lembrar junto”, em que grupos sociais recorrem às memórias para reelaborar identidades e imaginar o futuro. Em tempos de transformações sociais, segundo Marieta, essa necessidade torna-se mais profunda. “É o que estamos buscando vivenciar neste momento de grave crise no país, crise global e crise nas universidades públicas, que estão sob ataque”, comentou.

No caso da UFRJ, a primeira universidade do Brasil, resultado de um decreto que em 1920 reuniu a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina e a Faculdade Nacional de Direito, completar 100 anos não significa somente festejar, mas sim – e também – produzir reflexões. “A comemoração é oportunidade para a Universidade mostrar o seu significado à sociedade brasileira, destacando o que foi, o que é e o que pode vir a ser”, salientou a pesquisadora.

Marieta de Moraes Ferreira. Foto: Eneraldo Carneiro

Profissionalização

Para Marieta, comemoração implica “gestão das memórias”, uma vez que elas nascem de distintas vivências, revelam diferentes pontos de vista e podem ser divergentes. “O sentido das comemorações é promover o consenso, mas muitas vezes pode expressar dissensos. No nosso caso, da UFRJ, é importante aproveitar para estreitar os laços, num momento de luta”, afirmou.

Para garantir a pluralidade de vozes, destacou a pesquisadora, cabe à historiografia, com seus métodos, a produção de conhecimento sobre o passado. “Uma grande preocupação dos historiadores profissionais é que as comemorações são momentos de ‘vulgarização’ do conhecimento histórico. Nós queremos, efetivamente, dentro do projeto comemorativo da UFRJ, tornar nossa história acessível. Mas é preciso ter cuidado nesse processo de comunicação com o grande público”, advertiu.

Memória, Documentação e Pesquisa

Há mais de uma década, um grupo vinculado ao Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ (Sibi) põe em prática o trabalho profissional de retomada da memória institucional. Em 2006, esse grupo organizou um evento − As Bibliotecas Contam sua História − para apresentar relatos de experiência de bibliotecárias pioneiras, que trabalharam nas décadas de 1930, 1940 e 1950, vinculadas à Biblioteca Central, atualmente Biblioteca Pedro Calmon.  Um ano depois, percebendo que investigar o passado da UFRJ era uma demanda, esse mesmo grupo organizou pela primeira vez o Seminário Memória, Documentação e Pesquisa.

Teve início, assim, o Projeto Memória UFRJ, com a tarefa de produzir conhecimento sobre a história de 45 bibliotecas do Sibi, 15 museus, 15 prédios tombados e de uma infinidade de arquivos e obras raras, além de reunir pesquisas a respeito de outras instituições. Nesse contexto, em 2011 foi constituída a Divisão de Memória Institucional (DMI), que dá sustentação e continuidade às investigações, organiza coletâneas, promove seminários e exposições. “Foi uma necessidade começar a fazer esse mapeamento, que gerou frutos. Esses frutos são livros que hoje servem de referência a outras pesquisas”, afirmou Andrea Cristina de Barros Queiroz, historiadora e diretora da DMI. O material está disponível na página do Sibi.

Abertura do X Seminário Memória, Documentação e Pesquisa

Na décima edição do Seminário Memória, Documentação e Pesquisa, os participantes apresentaram pesquisas sobre a UFRJ no período militar (de 1964 a 1985), a UFRJ na década de 1990, os acervos da Universidade e também a trajetória e os arquivos de outras instituições.

Para os 100 anos, a DMI planeja uma grande exposição. “Comemorar é pensar o passado da instituição, gerando outro regime de historicidade. E qual seria esse regime? Qual é o sentido de existir uma instituição de pesquisa pública, gratuita, inclusiva, laica, com liberdade de pesquisar diferentes áreas de interesse?”, provocou Andrea.

 

*Imagens do X Seminário Memória, Documentação e Pesquisa são de autoria do fotógrafo Eneraldo Carneiro e foram cedidas pelo Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ à Coordenadoria de Comunicação (Coordcom).