UFRJ investiga novos medicamentos contra o câncer colorretal

Rãs em experimento. Foto: Artur Moês (Coordcom/UFRJ)

Por Rosa Maria Mattos*

Um grupo de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tem utilizado seu conhecimento sobre o desenvolvimento embrionário para testar novos medicamentos contra o câncer colorretal. Esse é o segundo tipo de câncer que mais mata no mundo – 862 mil mortes por ano, só fica atrás do câncer de pulmão –, conforme informações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Além dos tradicionais métodos de experimentação – que incluem ensaios com células do câncer em camundongos –, os pesquisadores, com o uso de embriões de rãs, avaliam a potência de compostos naturais, obtidos de plantas e frutas, na morte de células cancerígenas.

O grupo é coordenado por José Garcia Abreu, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e coordenador do Laboratório de Embriologia de Vertebrados. Recentemente credenciado ao Programa de Oncobiologia, o laboratório tem anos de pesquisa sobre a WNT, via celular importante para o funcionamento do corpo humano que atua no desenvolvimento de embriões – e de todos os outros vertebrados, e, na vida adulta, no surgimento dos pólipos que antecedem o câncer colorretal. O objetivo dos pesquisadores é desenvolver novos compostos químicos, inspirados em compostos naturais, que atuem na via WNT a fim de combater o câncer colorretal.

O laboratório pesquisa há mais de 15 anos a via WNT no desenvolvimento embrionário e do sistema nervoso em um modelo científico pouco comum nas pesquisas sobre o câncer: embriões de rãs do gênero Xenopus. Mas por que as rãs? “Porque são embriões grandes. A gente faz a fertilização in vitro e manipula o desenvolvimento de fenótipos ativando ou inibindo a via WNT”, responde José Garcia.

A partir desse modelo, os pesquisadores desenharam um sistema para identificar compostos químicos capazes de modular a via WNT em dois sistemas diferentes: in vitro, em uma linhagem celular que tem todas as características bioquímicas de uma célula do câncer colorretal, e nos embriões da rã Xenopus. “É um trabalho muito árduo porque a gente às vezes encontra um composto químico que funciona na célula, mas, quando coloca no embrião, não funciona. Ou que funciona no embrião, mas não funciona na célula”, conta o pesquisador. “Ter o resultado semelhante nas duas pontas, tanto na célula simples como no sistema embrionário, muito mais complexo, nos dá uma certeza de que estamos lidando com um inibidor fidedigno da via”, complementa.

Compostos naturais anticâncer colorretal

José Abreu no laboratório. Foto: Artur Moês (Coordcom/UFRJ)

Com esse sistema de testagem montado, o grupo de pesquisa está agora avaliando diversos compostos químicos de origem natural, extraídos e purificados de plantas, pertencentes ao grupo dos flavonoides e presentes na dieta alimentar das pessoas. Até o momento, cinco compostos mostraram-se com características inibitórias da via WNT. Não basta saber, porém, se uma substância inibe ou não a via, é preciso saber como. “Após essa identificação inicial, nós fazemos ensaios celulares funcionais para saber se temos uma atividade antiproliferativa e antimigratória, e se a substância atua na modulação do ciclo celular”, afirma José Garcia.

Em um dos trabalhos, o grupo demonstrou que a isoquercitrina tinha baixa toxicidade em células não tumorais, inibia a proliferação celular e a migração das células tumorais. Em outro, que aguarda publicação, uma das pesquisadoras do grupo estudou a piperina, composto natural que vem da pimenta do reino e apresenta um efeito antitumoral bastante significante.

“E no momento estamos com um trabalho muito forte, prestes a ser enviado para a publicação, que é do composto chamado lonchocarpina, um flavonoide que inibe a via WNT com a concentração mais baixa que nós pudemos definir aqui no laboratório. Ou seja, com uma quantidade muito pequena, ele é capaz de suprimir a via WNT”, destaca José Garcia. “Nossos dados revelaram que esse composto conseguiu afetar, desacelerar o ciclo celular, fazendo com que as células parassem de proliferar e diminuindo a formação de adenomas e carcinomas no intestino do animal”, conclui o pesquisador, que ressalta ser ainda necessário o estudo aprofundado dos mecanismos pelos quais as moléculas foram alteradas, nesse caso específico.

Ainda este ano, o grupo pretende iniciar uma nova forma de testagem de compostos: em organoides, modelos celulares tridimensionais que representam as células do intestino, mas em uma placa de petri. Com os organoides, seria possível diversificar as formas de verificação da eficiência das substâncias, evitando-se experimentos com camundongos. O grupo também objetiva avançar no estudo dos compostos naturais e  no desenvolvimento de novos compostos, baseados nas moléculas naturais, para que possam ser eventualmente patenteados e cheguem aos pacientes com câncer.

O trabalho envolve anos de experiência, a participação de muitos pesquisadores e conta com a colaboração de grupos de química, de desenho de compostos e de câncer colorretal.

*Da Assessoria de Comunicação do Programa de Oncobiologia