UFRJ lança Fórum Mulher

A imagem mostra seis mulheres sentadas em cadeiras dispostas em semicírculos. Atrás delas está uma projeção com slide sobre o Fórum Mulher
Fórum M é lançado no FCC. Foto: Bira Soares - FCC/UFRJ

De 21 a 27/11, o Fórum de Ciência e Cultura (FCC) promoveu o Fórum Mulher, ou simplesmente Fórum M, evento lançado para fortalecer o pensamento feminista em espaços abertos, gratuitos e democráticos. Com o objetivo de debater o tema em universidades e pontos estratégicos do centro e das periferias do Rio de Janeiro, o evento  também contou com a parceria do Laboratório de Teoria e Práticas Feministas do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (Pacc) e do #AgoraÉQueSãoElas, um dos mais importantes polos do ativismo feminista da web.

Antes do debate, que foi no formato de roda de conversa, a organização do evento apresentou as diretrizes do Fórum M, que irá funcionar como espaço não apenas de discussão, mas de produção de novas estratégias e ações no campo dos estudos de gênero, tanto na dimensão acadêmica quanto na sua aplicação para além dos muros da Universidade. 

“A ideia do Fórum M é ser uma atividade mensal de encontro: discutir o país e a universidade, a questão da mulher na universidade e, principalmente, a produção de conhecimento das mulheres na universidade”, explicou Heloisa Buarque de Holanda, professora da Faculdade de Letras (FL). Ela lembrou que a universidade brasileira é ainda muito colonizada: “Quase todos os autores que lemos são franceses ou americanos. Queremos poder pensar outras epistemologias”, defendeu Heloisa, uma das coordenadoras do projeto. 

Já Tatiana Roque, coordenadora do FCC, deixou clara a intenção de fazer do órgão um espaço de integração entre as diferentes áreas da UFRJ: “A ideia é que iniciativas como essas se ampliem e que a gente possa trazer outros grupos, de outras áreas, de humanas, exatas, de diferentes campi, e que isso possa se conectar aqui no Fórum de Ciência e Cultura”.   

De fato, o FCC será a base do Fórum M, que, no entanto, pretende ser itinerante. “A gente vai a outros lugares, para livrarias, para a Maré. Vamos ser um pouco nômades, para atingir locais que às vezes ficam fora do circuito”, explicou Heloisa. 

Yuderkys Espinosa Minõso: a voz do feminismo decolonial 

 Abrindo o ciclo de atividades, a escritora feminista Yuderkys Espinosa Miñoso trouxe como tema “A Astúcia das Condenadas: Hipersexualidade e a Agência dos Corpos Negros no Caribe”. Natural da República Dominicana, Miñoso atua em diversos países da América Latina como professora e ativista do feminismo decolonial. Em mais de duas horas de conversa, a pesquisadora levantou questões instigantes e úteis para pensar que lutas, disputas e saberes estão sendo produzidos pelos discursos feministas na América Latina atual. “Originalmente, nós, que nos intitulávamos feministas decoloniais, não éramos acadêmicas, mas mulheres vindas de setores populares, afrodescendentes, mestiças, e começamos a dialogar com o que se tem chamado de feminismo comunitário. A questão da produção de conhecimento se tornou um tema central para nós porque entendemos que não há possibilidade de uma prática política emancipatória para as grandes maiorias silenciadas que não implique uma reflexão sobre essa prática”, disse Miñoso. 

A ativista, oriunda da capital dominicana, Santo Domingo, explicou que a produção de práxis política gera um discurso, e que tal discurso “esteve sempre permeado por uma série de interpretações do social que deveriam ser postas à mesa para serem debatidas a fim de que as práticas políticas melhorem”. “A pergunta fundamental sempre foi: de que tipo de política [feminista] precisamos para a emancipação?” A pensadora contou que, desde o começo, seus estudos pretendem produzir efeitos práticos no mundo real. E, para isso, declarou Miñoso, seria preciso antes atuar sobre a teoria. “Não poderíamos deixar a teoria, a produção de saber sobre o mundo para as elites que sempre nos dominaram. Era necessário que nós nos apropriássemos das ferramentas intelectuais conceituais produzidas pela Academia para poder debatê-las e aprofundar uma crítica radical, que nos permita produzir novas categorias e novo conhecimento sobre o mundo.” 

Segundo ela, as mulheres afrodescendentes, indígenas e oriundas de condições subalternas foram, e ainda são, ocultadas por uma dinâmica em que mulheres brancas têm o domínio do discurso. É um discurso homogeneizante, no qual tais figuras privilegiadas se colocam como representantes da maioria das mulheres. Nesse sentido, a pesquisadora revelou que foi preciso buscar novos territórios para encontrar outros discursos possíveis. 

“O feminismo [hegemônico] sempre pensou que, na dita pirâmide social, as de baixo eram as mulheres, que elas estavam na base. Se tem uma mulher que está sustentando sobre seu corpo uma estrutura social e toda essa dominação, não é qualquer mulher. É uma mulher produzida dentro da colonialidade, produzida como não humana, como estando debaixo da linha da humanidade. É sobre a comunidade dessas mulheres racializadas que estão se mantendo as estruturas de dominação.” Nesse sentido, a feminista apontou ser preciso reverter o olhar ainda predominante sobre as mulheres afrodescendentes e indígenas em especial. “É importante considerar esse sujeito como agente, e não como absolutamente dominado. A tarefa de reconstruir as práticas de resistência é urgente”, completou. 

Nos dias 22, 25, 26 e 27, o Fórum M promoveu outras mesas de debate. No último dia de programação, houve ainda o lançamento do Manifesto Decolonial e de dois livros sobre a temática do feminismo decolonial, que marcou essa edição do evento.