A educação como fator (trans)formador

Por Ana Luiza Oliveira/ PR-5

Turma com vários alunos trans posam para foto com os aventais do projeto
Primeira turma do curso Foto: PR-5

Transformação das forças produtivas sociais: esse é o lema do curso de extensão Transgarçonne. O Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais no mundo, conforme mostra o último relatório da Transgender Europe (Tgeu), publicado em 2018. A expectativa de vida dessa população, atualmente, é de aproximadamente 35 anos. Buscando promover o respeito e democratizar o acesso de pessoas trans à universidade pública, o curso de extensão atua como uma ferramenta de inclusão social por meio da educação. 

Idealizado pelos professores de Gastronomia Renato Augusto Monteiro e Breno Cruz, o curso de qualificação prepara profissionais para atuar no mercado de Gastronomia – especificamente na subárea de café, bares e bebidas – e tem como público-alvo a população trans. 

“Quando a gente analisa a estatística, podemos observar que grande parte desse público não está inserida no mercado de trabalho formal. Sendo assim, a gente busca, com o curso de qualificação, aumentar o potencial de empregabilidade dessas pessoas”, afirmou Renato Augusto, professor e coordenador do projeto. 

Atualmente, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), apenas 4% das pessoas trans são empregadas formalmente. Para garantir que os alunos tenham de fato oportunidade de ingressar no trabalho formal ao concluir o curso, o projeto firmou algumas parcerias: a ONG Casinha; o Nudiversis, da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro; o Three Monkeys Beer; a Alastra Aventais; e o Grupo Trigo – este é o parceiro mais recente, que abriu duas vagas de estágio para pessoas trans após conversar com o Transgarçonne. 

Nem sempre a academia foi um ambiente diverso, tanto que esta é a primeira vez que a UFRJ oferece esse tipo de curso de extensão. O projeto possui carga horária de 54 horas e é dividido em aulas teóricas, aplicadas dentro de sala de aula, e teórico-práticas, ministradas no laboratório do Instituto de Nutrição da UFRJ.   

Especialmente para os estudantes da graduação que desejam atuar na extensão, Renato destaca: “Estamos no momento de ampliar nossa equipe para outros cursos da UFRJ. Todos os alunos que se interessarem pela temática, independentemente do curso, podem se inscrever e serão bem-vindos no projeto.”   

O curso, aberto a toda a comunidade trans de dentro e fora da UFRJ, é também uma chance de receber na Universidade pessoas que ainda não tiveram oportunidade de ingressar na carreira acadêmica. Dentre os critérios de seleção, é avaliada a condição social e trabalhista do candidato.

“A possibilidade de unir a necessidade de visibilidade e a militância com a Gastronomia, e ver que outras pessoas também pensavam nesse mesmo sentido, fez crescer muito mais em mim a vontade de participar”, conta Marianna Costa, aluna de Gastronomia e extensionista no projeto.  

Como os níveis de evasão escolar na comunidade trans são altos, em 2019 – ano em que se iniciou o projeto –, o curso recebeu algumas pessoas que haviam abandonado a escola antes de concluir o ensino médio. Na visão de Marianna, o projeto expande uma rede de esperança que cria uma sensação de pertencimento.

“Quando uma pessoa que não tem muita esperança vê um projeto que está dando certo, dando retorno, isso dá esperança para ela também. A ideia é expandir essa rede cada vez mais”, afirma.  

A previsão dos coordenadores para abertura de novas vagas é para o segundo semestre de 2020. No entanto, ainda que as aulas da primeira turma tenham encerrado, os extensionistas, coordenadores e ex-alunos do projeto mantêm um grupo no Whatsapp no qual são repassadas informações sobre vagas, workshops e outros projetos destinados às pessoas trans.  

“Através desse grupo, a gente acaba alimentando e fortalecendo o laço com eles”, afirmou Marianna. “As aulas terminam, mas nosso trabalho com eles continua.”

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