Coronavírus: como a COVID-19 afeta os pulmões?

Mão com luva cirúrgica opera equipamentos de laboratório
Pesquisas apontam danos permanentes Foto: Artur Moês - Coordcom/UFRJ

A pandemia do novo coronavírus ainda é considerada muito recente, por isso boa parte de seus mecanismos e danos futuros não foram completamente desvendados. Algumas pesquisas realizadas ao redor do mundo, no entanto, apontam que os pulmões são os órgãos mais afetados e podem acabar com lesões permanentes.

As professoras do Laboratório de Investigação Pulmonar, vinculado ao Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), Patrícia Rocco e Fenanda Cruz, afirmam que a maior parte dos indivíduos positivos tem sintomas moderados, leves ou, até mesmo, nenhum. Apenas 5% desses pacientes evoluem para um quadro de doença respiratória grave.“Essa falência respiratória aguda é caracterizada por falta de ar, respiração rápida, tonturas, batimentos cardíacos acelerados e transpiração excessiva. Nesse último caso, o paciente tem que procurar uma unidade de emergência imediatamente”, orientam.

Por mais que seja cedo para afirmar como a doença danifica o pulmão, é conhecido que as gotículas da saliva e/ou espirro carregam o vírus pelo ar e se depositam nas mucosas das pessoas. Lá, ele tem auxílio de duas enzimas para se internalizar no corpo e poder se multiplicar, atacando o organismo. Segundo as professoras, as informações de contágio e funcionamento do Sars-COV-2, vírus que causa a doença, são estudadas por modelos de outros coronavírus, como o que causa a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars). “Até o momento não se conseguiu desenvolver modelos experimentais de COVID-19 em camundongos e foi publicado recentemente um modelo em primatas que mostra sinais clínicos e replicação viral semelhante ao que ocorre no ser humano.”

Autópsias realizadas em indivíduos que faleceram pela doença mostraram que o vírus ataca também as vias aéreas centrais, podendo atingir os alvéolos. No epitélio de vias aéreas, tem se observado aumento da secreção de muco, com obstrução de pequenas vias. Uma vez ferindo as células epiteliais, existe uma resposta inflamatória aguda que lesa os pulmões e obriga que o paciente seja colocado em ventilação mecânica.

Os pacientes com doenças respiratórias prévias são um dos maiores grupos de risco para o coronavírus. Indivíduos com asma, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica, entre outros, já apresentam alterações respiratórias que se agravam ainda mais com a COVID-19. “Eles apresentam pulmões previamente inflamados,o que pode potencializar o processo inflamatório da infecção, favorecendo piores desfechos. Além disso, esses pacientes usualmente tomam drogas imunodepressoras, que por si só podem favorecer a replicação viral e acelerar a progressão da doença”, explicam.

Possíveis danos permanentes

Rocco e Cruz também citam estudos que indicam a possibilidade de pacientes que se recuperaram da COVID-19 apresentarem danos permanentes nos pulmões. Pesquisas feitas com pacientes na China revelaram que muitos indivíduos tiveram danos significativos durante o período da doença, tanto em um quanto nos dois pulmões, mas um número pequeno recebeu alta hospitalar com a capacidade pulmonar reduzida entre 20% e 30%.

As duas professoras são enfáticas em afirmar: ainda é muito cedo para dizer se os danos serão para sempre. “Investigações adicionais dos pacientes recuperados devem agora ser conduzidas para mostrar se eles desenvolveram posterior fibrose pulmonar e piora da oxigenação.”