Segurança alimentar e nutricional em tempos de pandemia

Foto: Artur Moês (Coordcom/UFRJ)

A alimentação pode ser uma aliada no combate à COVID-19? Não existe evidência científica que associe diretamente esse fator à prevenção ou ao tratamento da doença provocada pelo novo coronavírus. Porém, é sabido que alguns nutrientes agem no corpo humano, fortalecendo nosso sistema de defesa.

Pesquisadores da Universidade Médica da China publicaram em fevereiro uma revisão sistemática de outros estudos sobre potenciais intervenções no tratamento da infecção. No texto, entre outros procedimentos, os autores sugerem a avaliação nutricional de cada paciente, antes da administração dos tratamentos gerais. E destacam a importância, para infectados ou não, de uma dieta equilibrada em vitaminas (A, B, C, D e E), ômega 3, ferro, zinco e selênio.

Esses nutrientes “são reconhecidos como imunomoduladores”, explica Taís Lopes, professora do Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC) e representante da UFRJ no Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea – RJ), e podem ser encontrados, por exemplo, em frutas, verduras, legumes e grãos. Uma alimentação variada, que combine alimentos in natura, minimamente processados e devidamente higienizados pode ser a base de uma dieta saudável e, com isso, garantir a imunidade do corpo.

Mais que nutrientes

Ao procurar uma fonte de nutrientes, a docente recomenda alimentos que estejam na safra e sejam oriundos de produtores locais. Além de terem preços mais acessíveis do que os produtos que vêm de outros estados (ou, até mesmo, de outros países), são mais saborosos e têm mais qualidade. Se forem cultivados de forma ecológica, sem uso de fertilizantes químicos, fungicidas, inseticidas e herbicidas, por exemplo, garantem também que você não acumule veneno em seu organismo. Inúmeras pesquisas associam o consumo de agrotóxicos a doenças como cânceres, más-formações congênitas, além de distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais.

Laboratório Culinário de Manguinhos antes da pandemia

De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, alimentar-se é mais do que ingerir nutrientes específicos. É uma prática social que depende de fatores históricos, culturais, econômicos e de saúde pública. Conforme suas diretrizes, “uma alimentação adequada e saudável deriva de um sistema alimentar social e ambientalmente sustentável”. Além disso, deve considerar a diversidade de saberes e vir acompanhada de informação suficiente para que as pessoas façam suas escolhas com autonomia.

Seguindo essas premissas, Taís Lopes coordena o projeto de extensão Laboratório Culinário de Manguinhos (LCM). A ação reúne docentes e discentes dos cursos de Nutrição e Gastronomia da UFRJ e realiza oficinas com foco na promoção de saúde e na capacitação de pessoal. “Nós trabalhamos o conceito de alimentação saudável, a escolha de alimentos com respeito ao hábito e à cultura alimentar, além dos conceitos de utilização integral de alimentos e a redução do desperdício”, apresenta. As atividades são realizadas no Centro de Referência da Juventude de Manguinhos e, em razão da importância de se cumprir o isolamento social, estão temporariamente suspensas. Para acompanhar o projeto, acesse as mídias sociais: Facebook e Instagram.

“Quem tem fome, tem pressa”

Em 2019, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) publicou um relatório apontando que, em todo o mundo, os números da subnutrição voltaram a subir, após décadas em declínio, com mais de 820 milhões de pessoas sem acesso à alimentação digna e adequada. No Brasil não foi diferente e indicadores sociais recentes revelam que há mais de 52 milhões de pessoas vivendo com até R$ 420,00 mensais e 13,5 milhões sobrevivendo com até R$ 145,00 mensais. Ou seja, o país está de volta ao Mapa da Fome (havia saído em 2014, segundo a própria FAO), com 6,5% de sua população em situação de extrema pobreza.

Ana Santos (CEM). Foto: Gabriel Mira

Com a COVID-19, essa realidade tende a se acirrar ainda mais. Foi o que notou a culinarista e educadora popular Ana Santos, que trabalha com o tema da segurança alimentar e nutricional no Complexo da Penha. Ana integra a Organização Não Governamental (ONG) Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM), que desde 2011 atua nas favelas Parque Proletário do Grotão, Vila Cruzeiro, Estradinha, Favelinha e Serra da Misericórdia Sem Terra – esta, ocupação recente e sem saneamento básico, asfalto e fornecimento de energia elétrica. 

Antes da disseminação do novo coronavírus, o CEM se articulava com outras organizações sociais, educacionais e de saúde, produzindo alimentos, realizando mutirões, estimulando quintais produtivos, promovendo encontros. Com a necessidade da quarentena, a ONG não somente viu seus vizinhos padecerem, por não terem renda fixa e sequer condições de se movimentar pela cidade, como teve de buscar outras frentes de atuação.

“A chegada do vírus aqui dentro foi muito pavorosa. Quais são as condições que as pessoas têm para não transmitir, já que as casas são muito próximas umas das outras? Nossa maior luta, então, tem sido fazer a informação acontecer, conversar de longe, com um pano na boca que seja, com faixa, com cartaz, conscientizar as pessoas que aqui é nós por nós”, relata a ativista.

Para evitar que a fome também se alastre, o grupo cadastrou 200 famílias para receber cestas básicas e fez campanha entre entidades parceiras e pessoas físicas. Um dos apoiadores foi o movimento de consumidores Rede Ecológica, que, por meio de uma campanha intitulada Amigos da Rede, se organiza para enviar a produção de assentados da reforma agrária para o Complexo da Penha, unindo as duas pontas mais vulneráveis da cadeia.

Complexo da Penha. Foto: CEM

“Entrar no assistencialismo não é algo que a gente imaginou, mas, como dizia Betinho, ‘quem tem fome, tem pressa’. Quando a gente está dentro da favela e quando a nossa vida está voltada a transformar e a doar, a gente trabalha com o que vem. E o que veio foi a fome. A fome desesperadora”, comenta Ana Santos.

“Hoje, o CEM está concentrado nas campanhas de doação de alimentos, mas fazendo reflexões sobre como é possível trabalhar a cesta básica sem perder de vista nossos sonhos, nossas resistências, o cultivo da terra. Acabando a pandemia, que a gente tenha 200 famílias fortalecendo a agricultura urbana no Complexo da Penha, plantando, trocando, apoiando o quintal do amigo do lado, fazendo horta na laje”, afirma.

Para ela, o Complexo da Penha está passando por mais um desafio. “Sofremos diversas violências, físicas e simbólicas, com os racismos, as injustiças ambientais, as dificuldades de acesso a alimentos, à água, à terra, à moradia. Por isso, falar de agricultura urbana na favela, em contraponto a essas violências e em fortalecimento à soberania alimentar, é desafiar todos os dias as ausências. Quando você planta, você quer colher, mas nem sempre você vai colher aqui dentro.”

Dever do Estado

Taís Lopes (INJC). Foto: Acervo Pessoal

A alimentação é um direito indispensável para a sobrevivência humana. “As normas internacionais reconhecem o direito de todos à alimentação adequada e o direito fundamental de toda pessoa a estar livre da fome como pré-requisitos para a realização de outros direitos humanos”, explica Taís Lopes, professora do INJC. 

No Brasil, esse direito é previsto pela Constituição Federal, por meio da Emenda Constitucional n° 64/2010, e embasado pela Lei n° 11.346/2006, conhecida como Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan), que cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar (Sisan). De acordo com esses dispositivos, cabe ao Estado assegurar que seus órgãos não violem esse direito; agir para que outros sujeitos, grupos ou entidades não interfiram na concretização desse direito; promover as condições para que todos possam se alimentar com dignidade; prover alimentos a indivíduos que não consigam obtê-los por conta própria.

Com suas palavras, resume Taís: “A realização do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) requer a adoção de políticas e estratégias sustentáveis de produção, distribuição, acesso, consumo de alimentos seguros e de qualidade, promoção da saúde e da alimentação adequada e saudável em todos os níveis federativos”. Em tempos de pandemia, a professora destaca a importância de o Estado agir de forma ágil e priorizando as populações mais vulneráveis. “O acesso físico ou econômico aos alimentos deve se dar por meio de ações emergenciais do Estado em conjunto com a sociedade civil organizada, garantindo o isolamento social necessário. O Estado também deve fiscalizar a venda de alimentos por preços abusivos”, reforça.

Recomendações gerais

Foto: Artur Moês (Coordcom/UFRJ)

Para quem ainda tem o direito à alimentação respeitado, é recomendável que se evite estocar alimentos e, também, desperdiçá-los. O que sobra para poucos falta para muitos. A sugestão é fazer um cardápio semanal, planejar as compras e aproveitar integralmente tudo o que estiver na sacola. 

Vale lembrar que, após adquirir os produtos, é importante higienizá-los. Sanitizante hipoclorito de sódio para o que vem da feira ou direto do produtor (frutas, verduras, legumes etc.), água e sabão ou álcool 70° para embalagens que não forem descartadas.

Para tanto, é preciso algo básico: que se tenha acesso à água, como reforça Taís, “de qualidade e em quantidade suficiente”. A água será necessária também para o cozimento dos alimentos e para a hidratação. 

Quando respeitar a quarentena se torna fundamental para a saúde coletiva, a cozinha pode ser um refúgio. “A reclusão é uma oportunidade para cozinhar em família, testar novas receitas, adquirir novos hábitos, experimentar novos alimentos e desenvolver novas habilidades culinárias”, reforça a professora. Para mais detalhes, ela indica a leitura de um guia da Associação Brasileira de Nutrição (Asbran), feito para este momento em que a sociedade enfrenta a COVID-19.