Pandemia expõe impasses da educação a distância

Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)

A pandemia do novo coronavírus fez explodir o uso de sistemas e aplicativos desenvolvidos para atividades pedagógicas remotas. O fenômeno se acelerou na rede básica de ensino após o Conselho Nacional de Educação (CNE) dar sinal verde, em 18/3, para a realização de aulas online a partir do ensino fundamental.

Com escolas fechadas pela política de isolamento social, a utilização maciça de ferramentas digitais em substituição às aulas presenciais expôs as insuficiências da educação a distância (EaD) no país. Algumas delas são a falta de formação específica para professores e o precário acesso da população a recursos tecnológicos, como computadores e internet de qualidade.

Especialistas temem, ainda, que as políticas oficiais se curvem a interesses de fundações privadas e grandes plataformas digitais para naturalizar o uso da EaD na educação básica após a pandemia. Motivada por uma situação excepcional, a posterior utilização em larga escala da modalidade poderia servir para reforçar uma formação pragmática e acrítica.

Mercado de pacotes educacionais preocupa

Joaquim da Silva, membro do Comitê Permanente do Complexo de Formação de Professores (CFP) da UFRJ, considera que, mais à frente, negócios privados ligados ao mercado educacional podem, de fato, vir a se beneficiar da atual crise de saúde pública. “Acredito que sim. Sabemos que há o interesse de grandes corporações na venda de pacotes educacionais que prometem, sem cumprir, uma eficiência a toda prova do ensino e da aprendizagem de conceitos”, afirma.

É um interesse, diz, que se alia a outro: o de se reduzir o papel político do professor, o profissional encarregado, segundo ele, de mediar o processo formativo do aluno e que vai muito além da aprendizagem de conceitos. “Na verdade, o problema não está na EaD, mas no seu uso de forma desvinculada da prática profissional docente em toda a sua amplitude”, analisa Silva, que também é assessor da Pró-Reitoria de Graduação (PR-1) para o CFP.

Anna Thereza de Menezes, diretora adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ, também vê com preocupação o uso indiscriminado da EaD após a pandemia. “Creio que o risco sempre existe, sobretudo em um contexto de tentativa anterior de implementação da educação domiciliar e do constante ataque à educação, com corte de verbas e um discurso que muitas vezes demoniza a escola e seus agentes”, condena.

Além disso, acrescenta, é sabido que a iniciativa privada se beneficiaria com o uso da EaD. Ela lembra que algumas secretarias de Educação de estados e municípios já adotam programas criados pela Fundação Lemann e pelo Instituto Ayrton Senna, por exemplo. “Algumas organizações fornecem videoaulas, apostilas e outros materiais que anulam a presença do professor e retiram tanto o protagonismo estudantil quanto a autoria docente do processo de ensino-aprendizagem”, critica Anna Thereza, que integra o Comitê Permanente do CFP.

Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)

“A internet foi tudo o que nos restou”

No Rio de Janeiro, a rede estadual anunciou o uso da ferramenta Google Classroom para aulas virtuais a partir do dia 6/4. Já o município do Rio disponibilizou um aplicativo com recursos de apoio pedagógico para os estudantes durante o período de isolamento social. Tamara Lázaro, coordenadora pedagógica da Escola Municipal Albino Souza Cruz, localizada na comunidade de Manguinhos, considera que a pandemia tornou inevitável o uso de tecnologias virtuais.

“Penso que é imprescindível o esforço para a manutenção do vínculo da criança com a escola e o universo letrado, o que não necessariamente se daria através de aulas virtuais, embora a ferramenta ‘internet’ seja tudo o que tenha nos restado neste momento”, comenta. Contudo, ela salienta que muitas crianças tiveram o seu primeiro contato com a tecnologia digital na escola. “Falo sob a ótica de uma educadora popular da educação pública”, frisa Tamara, eleita para o Conselho Gestor Intersetorial (CGI) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que discute educação, saúde e assistência no território de Manguinhos.

“Há alguns anos, tornou-se um pouco mais acessível o uso de dispositivos tecnológicos e da internet. No entanto, não há como dizer que todas as camadas foram atingidas por esse avanço”, destaca. Segundo a coordenadora, uma família que possui apenas um dispositivo eletrônico, com pacote de internet pré-pago, e tem três crianças necessitando de aulas online diárias não estaria contemplada por uma educação a distância adequada.

Sobre o uso do aplicativo disponibilizado pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, considera a iniciativa válida, embora esbarre nas dificuldades elencadas acima. Tamara conta que os gestores e o corpo docente da unidade escolar são os responsáveis pelo diálogo com os responsáveis e pela inserção do conteúdo, colocando-se à disposição para as dúvidas dos estudantes.

Joaquim da Silva. Foto: Jornal da Adufrj

Professor fazer live não resolve

Joaquim Silva trabalha com EaD no curso de licenciatura em Química da UFRJ há mais de 10 anos. Ele diz que a modalidade pode ter um papel muito significativo durante a pandemia, desde que se considerem as suas especificidades.

Segundo o docente, a EaD requer materiais com linguagem e estética diferentes daqueles utilizados nas aulas presenciais. As formas de interação com os alunos, afirma, também se dão por outros canais e com outra demanda de tempo: “Não adianta o professor achar que fazer uma live resolve o problema”.

O desafio, pelo contrário, é imenso – diz Silva – e exige um envolvimento muito maior do professor, “que precisa ter uma formação básica como docente dessa modalidade antes de se aventurar por ela”.

Já para Anna Tereza, a EaD surge, nesses tempos de pandemia, como um ilusionismo. Tal como o mágico que retira o coelho da cartola, ela afirma que os profissionais da educação tiveram que inventar exercícios, produzir extensas páginas com conteúdos de suas variadas disciplinas, passar a fazer vídeos e forjar uma relação virtual que até então não existia.

“Confunde-se, muitas vezes, a ação de informar com a de produzir conhecimento. Essa última pressupõe uma postura ativa das partes na partilha de ideias, na construção conjunta e na elaboração de proposições às várias inquietações”, analisa.

Professores e profissionais da educação, segundo ela, tiveram que buscar soluções para uma prática que não cabe no virtual. “No lugar de se entendê-lo como espaço de experimentação, mantiveram-se atividades escolares sob uma mesma estrutura disciplinar e, no caso da educação básica, segmentada por faixas etárias e séries”, critica.

A atual situação exige dos estudantes e das famílias – prossegue – uma reinvenção da rotina escolar fora da escola, o que implica a reinvenção da rotina da casa. “Uma prima me disse que a filha dela não se interessa pelo conteúdo escolar fora da escola. Ela associa a casa à brincadeira, ao lazer, o que, me parece, é natural”, relata.

Anna Thereza acredita que a EaD utiliza ferramentas que podem ser interessantes na manutenção do vínculo com estudantes durante a pandemia, ou mesmo no decurso do ano letivo, com as aulas presenciais normalizadas. O CAp, por exemplo, tomou a iniciativa de desenvolver um site interativo para os professores e estudantes: o CAp-UFRJ na Quarentena

Anna Thereza. Foto: Acervo pessoal

O objetivo principal, segundo a professora, é estabelecer um espaço de manutenção de vínculo e mútua acolhida diante do contexto de isolamento social provocado pela pandemia. Ele funcionará como uma plataforma de partilha das experiências vivenciadas durante o período de confinamento (saiba mais aqui).

No entanto, para Anna Thereza, como substituta do ensino presencial, a EaD torna-se um problema.  A escola continua sendo, para muitas crianças e adolescentes, segundo ela, o local primordial de interação social, onde se deparam com a diferença de pensamento e de formas de ser e estar.

Ela lembra também que a escola é um lugar, sobretudo, de formação de sujeitos, da prática da escuta, do fomento ao diálogo e do reconhecimento e respeito ao outro. “A partir do momento em que me vejo frente ao outro, passo a reconhecê-lo enquanto sujeito, e não enquanto avatar”, afirma.

EaD não pode ser usada de forma fortuita

Joaquim Silva lembra que o Complexo de Formação de Professores apoiou o posicionamento da UFRJ em relação à suspensão das aulas e às atividades remotas. O Complexo endossou a diretriz da Universidade – continua – até por entender a seriedade da modalidade EaD, “que não pode ser utilizada fortuitamente neste momento já tão complicado”. Em nota divulgada em 28/3, o Comitê Permanente do CFP ressaltou que “o calendário futuro seguirá abrangendo o conjunto das licenciaturas e deverá estar em harmonia com o calendário das redes de educação básica”.

Segundo o professor, deve-se, porém, avançar no debate sobre o que fazer durante o período da quarentena. Ele defende que toda e qualquer decisão necessita ter por base o princípio da isonomia dos discentes. “É preciso haver garantias de que todos terão igual acesso ao material e que as adaptações serão feitas considerando as especificidades da realidade de cada um. Não basta almejarmos a igualdade, é preciso promover a equidade ao longo de todo o processo”, completa.

 

Reportagem: Coryntho Baldez / Setor de Cultura, Comunicação e Divulgação Científica e Cultural da Faculdade de Educação (Secult/FE/UFRJ)