A COVID-19 e a desinformação que mata

Foto: Artur Moês (Coordcom/UFRJ)

Por Alexandre Brasil Fonseca*

O papel da disseminação das chamadas fake news durante as eleições foi algo fartamente documentado e verificado, tendo ocorrido principalmente por meio do uso de aplicativos como o WhatsApp. É a chamada desinformação, que tem mobilizado vários países e governos diante da compreensão dos prejuízos que a circulação de mentiras tem causado a pessoas e países.

Isso ganha contornos extremamente preocupantes em meio a uma pandemia. Alguns continuam atuando como se estivessem envolvidos em meio a uma disputa de narrativas e, para tanto, disseminando suas mentiras como se fossem verdades de forma coordenada e intensa, visando alcançar uma grande rede de pessoas que confia na forma e naqueles que são seus portadores.

O problema que se estabelece neste momento é que a gravidade das consequências não se restringe a aspectos políticos ou na influência que possam ter na definição de um voto, por exemplo. Essas inverdades também contribuem para a tomada de decisão das pessoas. E, atualmente, elas estão expostas a mensagens conflitantes, que partem, de um lado, do presidente da República e, de outro, de um conjunto de organismos internacionais, cientistas, imprensa e alguns governadores.

É a filósofa Hannah Arendt que nos lembra que a mentira é muito mais facilmente assimilada, pois enquanto a verdade é única, a mentira pode assumir uma infinidade de contornos e conteúdos. No momento presente, o que temos visto no Brasil, patrocinado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, é algo desesperador e lamentável. O mundo todo passa por um difícil momento de luto com óbvias e preocupantes implicações econômicas, mas, principalmente, passa por uma emergência de saúde pública que exige respostas e ação imediata.

Não é nada disso que vemos no Brasil, como salientou o editorial da revista The Lancet, de 9 de maio de 2020. Há uma condução caótica por parte do governo federal, grande dificuldade de gestão dos dados e de condução de respostas, sejam na área da saúde, sejam na área social. Não há uma coesão em torno do desafio que assola a população.  E, pior, há um conjunto de mensagens contraditórias e erráticas sendo disseminado de forma permanente. Tudo isso ganha contornos desesperadores em razão do fato de que enfrentamos uma doença com alta letalidade e com enorme potencial de infecção. Toda a população mundial está suscetível a contrair a COVID-19, sem exceções. Isso representa a possibilidade do colapso de vários sistemas, o que é fartamente conhecido.

O que temos então? A necessidade de uma atuação do Estado para garantir a proteção e sobrevivência dos mais vulneráveis, juntamente com a manutenção dos serviços essenciais com o oferecimento dos necessários EPIs, a realização de isolamento social para o maior conjunto possível da população, a ampliação do número de leitos de UTI devidamente equipados e com os necessários recursos humanos e a realização do maior número possível de testes de diagnóstico. Fora isso, não há mágica ou outra opção disponível no momento.  A situação é urgente e essas são as ações imediatas a serem executadas.

Recentemente me deparei com uma mensagem sobre o falecimento de um jovem de 35 anos devido à infecção por COVID-19. Era uma postagem no Twitter e quem publicou mostrou como a pessoa em questão postava há semanas contra o isolamento. Resolvi olhar o perfil até mesmo para identificar se havia efetivamente alguma menção ao coronavírus. Vi muitas postagens dele contrárias ao isolamento e de reprodução da narrativa de Bolsonaro. Isso tudo em uma janela de 30 dias. No dia 16 de abril, ocorreu sua última postagem e, a partir daí, é possível acompanhar no perfil de sua namorada a apreensão com o estado de saúde dele e da mãe dela, ambos com infecção por COVID-19. A namorada, então, pede para que as pessoas façam isolamento social, afirma que a coisa é realmente séria. Até que ela coloca em seu perfil uma mensagem de luto no dia 1º de maio. Seu namorado faleceu 15 dias após a última postagem dele.

Percorrer a timeline dele é algo que dá angústia, revolta e tristeza. Ele assimila, concorda e reproduz o discurso verbalizado pelo presidente da República, a quem ele admira e atribui liderança. Bolsonaro, como homem público, mandatário máximo da nação, precisa ser responsabilizado, não só pelos erros de sua gestão, mas também pela disseminação das mentiras e pela condução irresponsável que tem tido nessa grave crise.

Nem todos os assuntos que comentarei aparecem no perfil dessa pessoa. Mas ela me ajudou a perceber como se deu, na temporalidade, a adoção dos discursos feitos e defendidos pelo presidente. O perfil em questão me pareceu como o de alguém que admirava e identificava em Bolsonaro uma liderança. Ele é presidente do Brasil e é admirado por muitos. Aqui, para mim, esse é o ponto central. A responsabilidade de Bolsonaro precisa ser assumida, já passou do tempo de ele assumir a tão exigida “liturgia do cargo”. Os resultados dessa postura errática neste momento são, concretamente, a morte de pessoas e isso é inaceitável. O que eu vi foi algo similar, com uma face com nome e sobrenome, do gráfico com o número de mortes e as frases ditas por Bolsonaro. O “E daí?” se torna algo ainda mais revoltante, dolorido e triste.

O primeiro movimento de Bolsonaro em meio à pandemia foi a defesa do uso da Cloroquina. Isso foi no dia 21 de março.  O perfil em questão não tece comentários sobre o assunto. Sabemos de pessoas que correram às farmácias para comprar o medicamento. A irresponsabilidade desse primeiro movimento foi absurda e, inclusive, teve implicações econômicas por meio do aumento da produção desse medicamento, provavelmente algo desnecessário. Um ponto a lembrar é que nunca houve proibição ao uso da substância, somente não se chegou à convicção de que ela seria a única e mais eficiente solução. Era uma alternativa a ser considerada. A primeira desinformação dada por Bolsonaro foi afirmar que uma cura estava sendo providenciada. E ele ainda terminou um vídeo afirmando: “tenhamos fé que brevemente ficaremos livres desse vírus”. Nesse dia, os dados apontavam para 18 óbitos. Hoje estão em torno de dez mil.

Foto: Pixabay

São cerca de duas dezenas as postagens no perfil do rapaz relacionadas à pandemia. A primeira é de 23 de março, dois dias após o início da quarentena na cidade de São Paulo e na véspera do início da quarentena no estado de São Paulo. Na postagem, o comentário dele é que está seguindo o isolamento social.

Dois dias depois, ele posta matéria em que o governador de São Paulo, João Dória, fala da importância de as indústrias não pararem. O rapaz comenta que Bolsonaro, então, tinha razão. Aqui foi um segundo movimento do discurso de desinformação promovido pelo presidente ao se posicionar, de forma enfática, contrário ao isolamento. É posta sobre a mesa uma falsa tensão entre economia e saúde. Algo inexistente e descabido. Tem início a identificação de inimigos a serem combatidos. O vírus em si, infelizmente, não é considerado nessa cruzada. Os primeiros eleitos são os governadores dos estados que decretam quarentena e que estariam atuando contra a economia e contra Bolsonaro. Esse discurso é permanente por parte do presidente e teve uma expressão dantesca no início de maio com a “visita” ao Supremo Tribunal de Justiça com alguns empresários.

No dia 27 de março, o rapaz compartilhou um vídeo gravado na véspera, em frente ao Palácio da Alvorada. Nele, Bolsonaro se dirige à imprensa e afirma: “Atenção, povo do Brasil, esse pessoal aqui diz que eu estou errado porque tenho que ficar em casa. Agora eu pergunto: o que vocês estão fazendo aqui? Imprensa brasileira, o que vocês estão fazendo aqui? Não estão com medo do coronavírus, não? Vão para casa. Todo mundo sem máscara”.  Bolsonaro ignora que a imprensa exerce serviço considerado essencial e indica para seus apoiadores mais um inimigo a ser combatido e ao qual não se deve confiar: a imprensa. Afinal, eles falam uma coisa e fazem outra e se estão ali, sem medo, é porque a coisa não deve ser tão grave assim.

Também no dia 27 de março, o rapaz compartilha meme com o rosto do Bolsonaro em um corpo de fisiculturista, em que repete parte do pronunciamento feito no dia 23 de março: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”. É a versão de que a epidemia é algo menor, fraco e, logicamente, de que pessoas de bem e os que são igualmente fortes como o presidente resistirão sem maiores dificuldades. A imprensa não tem medo, não há motivos para se preocupar.

No dia 28 de março, um novo inimigo é definido: o presidente da Câmara Federal e deputado Rodrigo Maia, que aparece em foto com o governador de São Paulo. E o comentário é de que os dois atuam conjuntamente para derrubar Bolsonaro. Líderes do executivo estadual estariam em conluio com o Poder Legislativo, visando apenas prejudicar Bolsonaro. Essa interpretação esquece completamente que passamos por uma pandemia e que o mundo padece diante de milhares de mortes. Tudo se restringe a uma narrativa apequenada e totalmente megalomaníaca que é reproduzida a exaustão por bots e influencers e acaba aterrissando nos celulares de muitos dos apoiadores de Bolsonaro por meio das redes sociais e dos grupos de WhatsApp.

Também nesse dia, o rapaz compartilha longa explicação sobre a “quarentena vertical”, algo praticamente inexistente na discussão mundial para a resposta da pandemia. Talvez esse desejo de Bolsonaro não levado adiante deva ter contribuído, inclusive, para ele demitir o ministro da Saúde no meio de uma grave crise de saúde. Sobre isso, chegou a expressar que era algo que ele queria que fosse feito, conforme entrevista do dia 25 de março na frente do Alvorada: “Conversei por alto com o Mandetta (...). A orientação vai ser o vertical daqui para frente. Vou conversar com ele e tomar a decisão. Não escreva que já decidi, não. Vou conversar com Mandetta”. O que ele sinaliza aqui, juntamente com a Cloroquina, é um ponto central em seu discurso: existem opções. Há alternativas. Essa postura é pura desinformação, totalmente descolada do consenso que é compartilhado em todo o mundo.

Uma cereja do bolo surge ainda no dia 28 de março, quando compartilha um texto sem autoria que circulou bastante em várias redes sociais e no WhatsApp sobre como a quarentena representaria uma “amostra grátis” do comunismo. Aqui entra uma perspectiva que dá um caráter ideológico à narrativa posta. Há um grupo de inimigos reunidos ─ governadores, deputados e a imprensa ─, que, juntos, atuam para derrubar Bolsonaro e implementar o comunismo. Isso, cerca de um mês depois, seria novamente elaborado por meio de texto escrito pelo chanceler brasileiro, em que ele afirma estarmos diante de um “comunavírus”.

No dia 2 de abril, postam na página do rapaz o vídeo que Bolsonaro compartilhou dizendo ser o apelo de uma professora. Na verdade, é de uma empresária que faz um depoimento emocionado, afirmando, entre outras coisas, que precisava ir para o trabalho. Ela também pede que o exército seja colocado nas ruas e afirma serem os ministros do STF “bandidos de toga”. O grupo de inimigos fica completo com a inclusão do judiciário e a convocação do exército para nos defender disso tudo e do comunismo que foi anteriormente evocado.

Depois, no dia 6 de abril, ao compartilhar uma notícia sobre o anúncio feito pelo governador Dória da prorrogação da quarentena, a única postura possível e necessária, a reação do rapaz é de revolta. Para ele e tantos outros que seguem o presidente da República, que se informam confiando em sua liderança, qualquer coisa que esteja associada ao isolamento social não tem mais credibilidade. Basta ser forte, não é tão sério, há alternativas e é preciso não enfraquecer a economia. Qualquer coisa que não caminhe nessa direção é um erro, uma afronta e tem como objetivo tanto derrubar Bolsonaro como implementar uma ideologia alienígena no Brasil.

A partir daí é possível ver no perfil do rapaz duas postagens sobre o uso de máscaras, até que, na sua última postagem, feita no dia 16 de abril, ele comenta sobre um meme que faz referência tanto ao isolamento social como ao uso de máscaras. Três dias depois, a sua namorada faz um pedido por orações por ele e por sua mãe. Ambos com infecção por COVID-19. Ela escreve: “achamos que este vírus está longe e ele está cada vez mais próximo”.

No dia 20 de abril, ela posta na página do namorado. Compartilha sua preocupação de ele não estar tendo apetite. Ele está internado e ela tem acesso restrito a ele. No dia 22 de abril, ela faz texto pedindo para que as pessoas fiquem em casa: “para aqueles que também como eu não acreditavam que esse vírus age do jeito que age, cheguei até ouvir pessoas falarem que tudo isso era coisa de política, que não era para tanto. (...) Infelizmente ele atingiu os meus (...) hoje o que eu tenho para pedir é para que fiquem em casa (...), fiquem em casa e se protejam”.

Nos dias 27 e 29 de abril, ela posta mensagem defendendo a necessidade de isolamento social e um vídeo de arrependimento do apresentador de TV Sikeira Jr., que era enfático contra o isolamento e que também sofreu com a infecção. Infelizmente, menos de 15 dias após a última postagem do namorado, ela troca a foto de perfil por uma de luto. Ele havia falecido na madrugada do dia 1º de maio. Um dia antes do seu aniversário. A mãe dela segue internada, elas se comunicam pelo celular e, além das condolências, fica o desejo por sua total recuperação.

Como nação, como humanidade, vivemos um momento de luto e solidariedade. Também é momento de denúncia para que essa desinformação disseminada por Bolsonaro e o Gabinete do Ódio que ele mobiliza pare de promover mais mortes. Mortes que poderiam ser evitadas, caso não estivéssemos diante dessa confusão de narrativas. Há toda uma condução errática por parte do governo. A COVID-19 não tem merecido, por parte de Bolsonaro, a atenção devida. Questões menores ou que poderiam esperar são colocadas na agenda do dia, inclusive com a mudança na condução do Ministério da Saúde. Isso é algo totalmente fora de sentido e razoabilidade. O que representa uma mudança dessa monta neste momento é, no mínimo, avassalador em relação à condução e liderança que o governo federal precisaria ter.

Alexandre Brasil. Foto: Diogo Vasconcellos

Dentro da questão das narrativas, a comunicação oficial do governo optou por afirmar o número de pacientes recuperados, como se não estivéssemos diante de uma pandemia com milhares de mortos em um país que possui uma das menores coberturas em termos de testagem da população. Assim, com a mudança do ministério, além de alterações no “dress code” com a saída do jaleco do SUS e a entrada de ternos bem cortados, vemos gestores públicos falando mais na quantidade de curados, enquanto os números de óbitos aumentam de forma vertiginosa. Os números que passam a ser reproduzidos nas mensagens das redes sociais do governo federal são graficamente expressos no “Placar da Vida”, no qual as mortes são ignoradas e onde vemos a reprodução de um discurso desprovido de qualquer relevância em função da fragilidade dos dados. Sobre as centenas de mortes diárias, o governo parece ter somente uma resposta: e daí?

Há também erros em relação à proteção social, formação de filas desnecessárias e uma gestão temerária em relação à necessária assistência à população vulnerável. Os desafios são imensos e exigem dedicação e envolvimento de toda a sociedade. Enquanto isso, o que vemos são disputas políticas, disseminação de mentiras e o estabelecimento de uma narrativa que pouco acrescenta ao enfrentamento da grave crise de saúde e social pela qual o mundo passa. Que possamos atuar de forma efetiva em nosso cotidiano em atos de solidariedade, mas que também a sociedade brasileira possa reagir e dar fim à propagação da desinformação, que também mata e traz ainda mais sofrimento a tantas pessoas. Bolsonaro é responsável por essas mortes e pelo caminho que o país tem seguido em meio à pandemia. É tempo de que uma grande e ampla união ocorra e faça frente à forma errática que tem marcado a condução do país. É preciso, em nome da preservação de vidas, dar um basta a tudo isso.

 

* Alexandre é sociólogo, professor associado e diretor do Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Uma versão desse texto foi publicada no Le Monde Diplomatique Brasil.