Enfrentando a pandemia: da emergência à construção da nova normalidade

Por Marcelo Macedo Corrêa e Castro*

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

As primeiras notícias sobre o surgimento de um novo vírus do grupo Corona começaram a circular mundialmente na última passagem de ano. Durante os meses de janeiro e fevereiro, os brasileiros acreditavam estar lidando com um surto que infectava asiáticos e europeus, mas que estava longe dos trópicos, onde as altas temperaturas representariam uma barreira a sua sobrevivência. 

Hoje já se pode afirmar que o vírus estava no país desde janeiro e que as medidas tomadas para retardar a curva da sua disseminação, adotadas em março, poderiam ter sido implantadas antes. Hoje também já se pode afirmar que, diante de um quadro de muitas incertezas, está descartada a volta imediata ao que era antes. Assim como está fora de questão o retorno simultâneo dos diferentes cidadãos às suas atividades.

No caso da Universidade Federal do Rio de Janeiro, construímos, a partir de 16/3, estratégias para gerenciar um primeiro isolamento, previsto para durar duas semanas. Ao fim da vigência das medidas emergenciais, estava claro que seria necessário prorrogá-las por tempo indeterminado, o que efetivamente foi feito, mas ainda com perspectivas de retorno ao trabalho presencial dentro de um prazo curto, talvez mais um mês.

O retorno não foi possível e, pelo que sabemos atualmente, continuará inviável por bastante tempo, pelo menos o suficiente para que se descartem dois caminhos de enfrentamento da pandemia: encará-la como uma emergência cujos efeitos cessarão em breve e considerar que a retomada das atividades se dará nas condições existentes antes da pandemia.

Não estamos mais lidando com uma emergência, embora, em muitos aspectos, o caráter emergencial não possa ser descartado, sobretudo no que se refere ao estado de prontidão dos serviços de saúde, segurança pública e informação, por exemplo.

Quando dispusermos de algum nível razoável de relaxamento da disseminação, da contaminação e do adoecimento causados pela COVID-19, não poderemos voltar todos, ao mesmo tempo, a fazer tudo o que fazíamos antes, dos jeitos que fazíamos antes. Não será como retornar de uma greve ou um período de chuvas que provocam deslizamentos, acontecimentos com os quais já temos algum acúmulo para lidar institucionalmente.

Defendo, pois, que precisamos começar a construir aquilo que vem sendo chamado de “novo normal” ou “nova normalidade”, sem descuidar, todavia, da possibilidade de que isso inclua períodos de isolamento como o que estamos vivendo ou – quem sabe – até mais rigorosos. Trata-se de construirmos não mais um conjunto mais prudente e sensato de providências para atravessar uma crise de curta duração, mas sim novas práticas para novos tempos, espaços, condições e sujeitos.

Nas últimas três semanas, tiveram início discussões com esse propósito. Grupos de trabalho tentam desenhar cenários para lidar com a nova situação, ao mesmo tempo que buscam se abastecer com dados ligados ao acesso e uso de mecanismos de comunicação a distância. 

É um começo, mas para que isso não se restrinja ao acirramento de disputas já instaladas sobre aspectos político-pedagógicos da chamada Educação a Distância, creio que precisamos avançar na construção de pressupostos que ajudem a realizar atividades nesse novo cenário, sem prejuízo de duas condições fundamentais para a nossa identidade: a garantia da qualidade das ações e do seu caráter público, laico, gratuito e socialmente referenciado, bem como o respeito à diversidade de áreas de conhecimento de que se compõe a UFRJ.

Foto: Pedro Barreto (SeCom/CFCH)

Asseguradas essas condições, entendo que um primeiro pressuposto seria o de que não retornaremos aos esquemas e condições anteriores de forma imediata. Ainda que haja, no horizonte dos próximos meses, momentos em que isso será possível, também é necessário vislumbrar, no mesmo período, novos e talvez mais rigorosos trechos de isolamento social.

O segundo pressuposto é o de que os sujeitos do corpo social da UFRJ não retornarão, ao mesmo tempo e nas mesmas condições, aos seus postos e afazeres. Uma vez incluídos em diferentes grupos, em função dos riscos de contaminação e de morte a que estamos expostos, voltaremos em tempos e de formas diferentes.

Finalmente, o terceiro pressuposto é o de que a “nova normalidade” não se reduzirá à transferência do presencial para o remoto. Não só porque operacionalmente é inviável, como também porque os sujeitos estão reorganizados em suas rotinas em função das demandas de restrição de contato. 

Não sabemos o quanto a “nova normalidade” vai durar nem o quanto conseguiremos sustentá-la como sucedânea legítima de um processo de desenvolvimento que nos trouxe até aqui como uma instituição reconhecida por sua excelência. Talvez, com sorte, seja apenas um desenho para continuar o caminho por meses. Mesmo assim, considero que nosso foco agora deve ser este: recuperar o protagonismo na condução do nosso desenvolvimento, construir, com diálogo e inteligência, o avanço do estado de emergência rumo à instalação de uma “nova normalidade” feita com a nossa marca.

 

*Marcelo Macedo Corrêa e Castro é decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFRJ.