"Ideia é conseguir acesso a todos", afirma reitora sobre aulas remotas


foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom/UFRJ)

Em entrevista concedida ao jornal O Globo e veiculada nesta quarta-feira (27/5), a reitora da UFRJ, Denise Carvalho, falou sobre o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o acesso à UFRJ, os planejamentos pós-pandemia e o ensino remoto.

“Em torno de 10% a 20%, que são cerca de 10 a 15 mil alunos, contando a pós-graduação, precisarão de ajuda para ter equipamentos, como netbook ou tablet, e internet banda larga. Nossa ideia é conseguir acesso a todos eles”, destacou a reitora.

Com a suspensão das atividades acadêmicas presenciais por conta da COVID-19, a UFRJ tem se dedicado ao enfrentamento da doença. Além disso, a Reitoria, os colegiados superiores e as unidades da UFRJ estudam formas de educação complementares ao ensino presencial, considerando a diversidade da instituição.

Para atender o corpo discente, a Pró-Reitoria de Políticas Estudantis (PR-7) lançou recentemente um pacote de auxílios emergenciais aos alunos da UFRJ, como o Portal da UFRJ noticiou.

 

Leia, a seguir, a íntegra da entrevista da reitora ao jornal.

 

Como a senhora avalia o adiamento do Enem?

Impossível o Enem ser realizado em novembro em cidades como o Rio de Janeiro. Aqui não teremos, provavelmente, escolas completamente abertas. Como fazer as provas? Todos com o EPI? Difícil. Era um pouco irresponsável manter em novembro. Não só pela dificuldade de estudo, mas pelo local da prova. Não pode colocar todas em ambiente fechado. Alguns outros países tiraram o conteúdo do 3º ano, mas isso não resolve a questão de sermos um país muito atingido pela pandemia. Não resolve a questão que, infelizmente, o Brasil não adotou as medidas adequadas para conter a pandemia. Como escolhemos, como país, não adotar essas medidas, o número de casos vai ficar alto por alguns meses em algumas cidades e talvez se alastre por todas as cidades brasileiras. O Brasil talvez seja um caso único de ondas de mortes pela Covid-19 porque não temos ação de restringir a doença em algumas cidades e regiões. Há um movimento contrário, que banaliza, minimiza, que diz que tem medicação quando não tem medicação, que diz que não é uma doença grave quando ela mata.

Ainda há chances de aulas presenciais em 2020?

É muito difícil imaginar como a curva vai evoluir na cidade do Rio. Mas ensino presencial com turmas completas, com certeza, não há chances. A menos que se descubra um medicamento ou uma associação medicamentosa que cure a doença. Esse medicamento não existe ainda. Ainda sou otimista: se encontrar até agosto, setembro, um coquetel de medicações que controle o vírus, pode ser que se retorne ainda em 2020. A vacina é praticamente impossível acontecer esse ano. Ou encontramos medicação ou não haverá retorno completo.

O que poderia acontecer presencialmente?

As atividades presenciais para o semestre são imaginadas para turmas menores. Aquele estudante com dificuldade de acesso à internet. Mesmo a UFRJ fazendo um esforço de inclusão digital, há endereços nos quais a banda larga não chega. O Rio tem uma geografia muito especial. Então, imagina: num sala de 100 alunos, dez que não tiveram como cursar a disciplina poderão fazer presencialmente em salas com janelas abertas, uso de equipamentos de proteção individual, distanciamento social. Turmas de 150, 100 alunos, como temos, não vai poder acontecer.

Como está sendo planejado a volta às aulas?

A UFRJ começa a estruturar a partir dessa semana um grupo de estudo pós-pandemia. Ele tem membros do GT Coronavírus, que foi formado desde o final de janeiro pela reitoria sob a coordenação do professor Roberto Medronho, que participará do GT Pós-Pandemia e outros membros de diferentes áreas.

Que decisões esse GT tomará?

A primeira fase é identificar quais são as disciplinas que podem acontecer no ambiente remoto ao mesmo tempo em que a gente está fazendo um levantamento para saber que estudantes precisam de acesso à internet de melhor qualidade para a inclusão digital deles. A segunda fase é analisar a infraestrutura da universidade e a identificar as salas de aula que poderão ser usadas na pós-pandemia. Nem todas funcionarão. Outro exemplo são as bibliotecas. Temos 45 e algumas não têm ambientes para serem abertas na pós-pandemia porque são fechadas sem possibilidade de janelas. E também queremos montar, se tivermos orçamento, estruturas como salas de estudo amplas, ventiladas com acesso de internet de qualidade para os estudantes que têm dificuldade de estudar em casa. A Ilha do Fundão tem espaço para isso. Mas isso é a fase três e eu imagino que só acontecerá no final de 2020 e início de 2021. E assim, progressivamente, a UFRJ se prepara para a possibilidade do vírus ainda estar circulando na cidade no Rio no ano que vem. Porque essa possibilidade existe.

A senhora consegue estimar quantos alunos precisarão de ajuda para serem incluídos digitalmente?

Em torno de 10% a 20%, que são cerca de 10 a 15 mil alunos, contado a pós-graduação, precisarão de ajuda para ter equipamentos, como netbook ou tablet, e internet banda larga. Nossa ideia é conseguir acesso a todos eles. Segundo os dados informados pelos alunos no momento da matrícula, quatro mil não têm computador em casa. Estamos partindo desse número, mas a gente sabe que essas condições mudam ao longo do tempo porque é muito comum o aluno sair da sua cidade para vir estudar na UFRJ e ir morar numa república. Nossa pesquisa atual descobriu que mais de 50% dos alunos, servidores e professores têm banda larga. Mas ainda há muita gente excluída. Muitos só têm acesso por celular e plano de dados, que não é o adequado para assistir aulas porque a rede é estável e o plano finito.

A UFRJ tem esse dinheiro?

Não temos orçamento para isso. Mas entendo que o Ministério da Educação deve se preocupar. Vamos encaminhar o orçamento, que ainda estamos fazendo, para eles porque queremos retomar as atividades mesmo através do ensino remoto emergencial, que não é o ideal e substitui o presencial, mas não queremos ficar parados para não ter o cancelamento do semestre. Há muitos estudantes que precisam se diplomar, que pagam aluguel na cidade do Rio para estudar. O MEC tem que ter um programa para atender as grandes universidades federais.

E como seria esse ensino remoto?

Nós estamos imaginando um ensino remoto emergencial híbrido, de forma que os estudantes assistam às aulas em tempo real com o professor, mas que essas aulas também fiquem gravadas para que o ensino possa acontecer de forma assíncrona. Ou seja, depois o estudante pode rever a aula ou assistir em outro momento porque há aluno que não tem tranquilidade em casa para estudar naquele momento devido a incômodos de suas casas. Mesmo quando a internet chega, pode não haver o ambiente de estudo necessário. Isso tudo está acontecendo e imagino que em dois meses, no máximo, a gente esteja preparado.

Como estão os prazos da pós-graduação?

Internamente, a gente faz o que pode. Mas precisa sensibilizar a Capes. Na UFRJ, o regulamento prevê 60 meses para o estudante de doutorado defender a Tese. A gente quer ampliar esse prazo. Em vez de 60 meses, queremos dar mais seis meses ou um ano. Mas isso é uma resolução interna e fará com que os programas da UFRJ sejam pior avaliados se a Capes não tiver esse olhar. Um dos itens de avaliação é o tempo médio de defesa. Esse tempo médio subirá na UFRJ com essa mudança. Imagina se a gente perde a nota 7 (máxima da avaliação da Capes) por causa do tempo de titulação, que é obviamente causado pela pandemia? Espero que esse tempo não seja levado em consideração nesse quadriênio pela Capes. Basta ela fazer isso. Vamos lutar para que isso aconteça.

Se a Capes não desconsiderar o tempo de titulação, a UFRJ manterá a mudança?

Com certeza. A universidade precisa dar o tom do que é importante em termos técnico-científico. Não é possível que a gente fique cobrando que o estudante defenda no prazo quando ele está com problemas para trabalhar no laboratório. Os laboratórios estão funcionando, mas com revezamento de alunos.

Como fica o ingresso do meio do ano?

A UFRJ não fazia matrícula sem ser presencial. Então, há estudantes ainda do primeiro ingresso, que estavam na 3ª chamada do Sisu 2020, que fizeram a pré-matrícula, mas não puderam fazer a matrícula. Ontem foi aprovado no Conselho de Ensino e Graduação que esses estudantes possam entregar virtualmente os documentos. Isso gera problemas na heteroidentificação. Estudantes que entraram pela cota que não podem ser heteroidenfiticados. Estamos, então, fazendo uma matrícula condicionada. Depois, será cancelada ou confirmada.

Após o problema do Enem do ano passado, quando houve erro nas correções, e a demora pelo adiamento da edição de 2020, a senhora já cogitou a retomada do vestibular próprio da UFRJ para ter mais controle desse processo?

Não. O Sisu nos traz menos problemas do que ganhos. A UFRJ tem no Sisu um bom exemplo. Estávamos estudando a possibilidade de não termos duas entradas pelo Sisu. Ou seja, de já matricularmos em 2021 os estudantes do 1º e do 2º período. Outras universidades já fazem e eu, particularmente, gosto do estudante já saber que ele tem matrícula na UFRJ. Mas nada disso agora é prioridade. Tem um grupo de professores que gostaria de usar o Sisu como primeira fase e uma prova nossa como segunda fase. Mas é uma discussão muito incipiente. Então, sair do Sisu, não. Agora, não sabemos o que vai acontecer com o Enem. Essa instabilidade pode fazer com que a gente repense essa posição, infelizmente.

O faria a UFRJ repensar o uso do Enem?

Se a gente começar a ver que o Enem tem problemas de correção, como aconteceu no ano passado, e na qualidade das provas, a gente tem que repensar. A gente não pode admitir estudantes ingressante sem ter tido a prova corretamente corrigido.