O Salão Dourado do Palácio Universitário, no campus Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sediou a sessão solene que outorgou o título de Doutor Honoris Causa ao diplomata e embaixador Celso Amorim. A homenagem, que representa o reconhecimento máximo da Academia a personalidades que prestaram contribuições excepcionais à ciência, cultura e humanidade, celebrou a trajetória de um homem público cuja vida se confunde com a própria história da política externa e da cultura brasileiras. A proposta para a concessão do título partiu do Fórum de Ciência e Cultura (FCC) e foi formulada pelo Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE).
A relação de Celso Amorim com a UFRJ carrega uma memória afetiva e histórica. Em seu discurso de agradecimento, o embaixador relembrou que ingressou no Instituto Rio Branco em 1963 e, na mesma época, prestou vestibular para o curso de Filosofia da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFI) da então Universidade do Brasil, atual UFRJ. Contudo, com o golpe militar de 1964, o curso noturno foi extinto, inviabilizando as aulas com grandes intelectuais como Álvaro Vieira Pinto e José Américo de Almeida.

“Há cerimônias que nos honram por sua importância institucional, e há outras que, além disso, nos tocam de maneira muito especial. Esta é, sem dúvida, uma delas. Conceder o título de Doutor Honoris Causa da UFRJ a Celso Amorim é reconhecer uma das mais importantes trajetórias da vida pública brasileira. Celso pertence a uma geração de homens públicos que compreendeu que servir ao Brasil significa, antes de tudo, acreditar no Brasil. Amorim sempre soube que uma nação não se afirma no mundo apenas pela força de sua economia ou pela dimensão territorial. Afirma-se também por sua cultura, sua identidade, pela capacidade de produzir ideias e pela coragem de defender seus próprios interesses”, disse o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, durante a homenagem.
As “Múltiplas Vidas” de Celso Amorim: Cinema e Diplomacia
A saudação oficial ao homenageado foi proferida pela professora emérita Andrea Daher, que traçou de forma poética as diferentes facetas e “vidas” vividas por Amorim. Daher destacou a precoce imersão de Amorim no cinema brasileiro, atuando como assistente de direção de Ruy Guerra no filme Os Cafajestes e, posteriormente, como diretor-geral da Embrafilme entre 1979 e 1982.

Na diplomacia, Amorim construiu uma carreira de múltiplas competências desde sua formatura no Instituto Rio Branco, em 1965. Atuou em postos em Londres, Washington e chefiou a missão brasileira junto ao Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio) e à Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra. Foi duas vezes ministro das Relações Exteriores (de 1993 a 1995 e de 2003 a 2011), ministro da Defesa (de 2011 a 2015) e, atualmente, atua como assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais.
A coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, Christine Ruta, comparou a vida pública de Amorim a viver dentro de um furacão. Ela pontuou os desafios das instituições multilaterais contemporâneas, como as pressões sobre a Organização das Nações Unidas (ONU) e a OMC, e destacou o papel do homenageado na consolidação de blocos como os Brics para desenhar um sistema internacional multipolar. Ruta trouxe uma curiosidade da juventude de Amorim: muito antes do cinema e do Itamaraty, o embaixador traduziu para o português o livro O Mágico de Oz, uma narrativa que começa justamente com a força de um furacão. “É difícil não ver nisso uma espécie de premonição literária das tempestades políticas que o embaixador Celso Amorim ainda atravessaria”, assinalou a coordenadora.
Desenvolvimento, Paz e Soberania Tecnológica
Durante a cerimônia, Celso Amorim fez uma análise do atual cenário geopolítico, com a proliferação de conflitos mundiais. Dialogando com os conceitos dos pontífices Paulo VI, o embaixador propôs uma inversão necessária para o nosso tempo: “A paz é o novo nome do desenvolvimento”. Amorim também projetou os desafios éticos e geopolíticos da inteligência artificial, defendendo que o Sul Global precisa cooperar para que a tecnologia não se torne um novo instrumento de dominação seletiva.

“O Brasil não pode abrir mão da capacidade de diversificar parcerias. Devemos continuar dispostos a cooperar com todos os países, de todos os continentes, independentemente da sua orientação política. A tarefa principal da política externa hoje é assegurar uma posição altiva e soberana no novo equilíbrio global. A inserção nacional do Brasil passa necessariamente pela integração regional com a América Latina, em especial a América do Sul. Rejeitamos de maneira categórica a ideia de que a América Latina possa ser tratada como área de domínio de uma superpotência”, disse Amorim.
A Aliança com a África
A cerimônia contou com a apresentação artística do coral Brasil Ensemble UFRJ, dirigido pela professora Maria José Chevita Rezende. O grupo apresentou clássicos e encerrou com África Unida, criação coletiva moçambicana regida por Feliciano Comé.

Roberto Medronho destacou a força simbólica dessa homenagem musical, lembrando que o repertório resgata um trecho de O Grito de Moeda, a primeira ópera moçambicana, que recria o histórico massacre de resistência colonial de 1960. Medronho aceitou o desafio de Amorim de estreitar ainda mais os laços acadêmicos com o continente africano, ressaltando com orgulho que a Universidade é embaixadora de ciência e educação da Associação das Universidades Africanas.
Além do reitor e do homenageado, também compuseram a mesa de honra da cerimônia a vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci; a oradora e professora emérita da UFRJ, Andrea Daher; e a coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, Christine Ruta.





































