UFRJ outorga título de Doutor Honoris Causa ao embaixador Celso Amorim

O Salão Dourado do Palácio Universitário, no campus Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sediou a sessão solene que outorgou o título de Doutor Honoris Causa ao diplomata e embaixador Celso Amorim. A homenagem, que representa o reconhecimento máximo da Academia a personalidades que prestaram contribuições excepcionais à ciência, cultura e humanidade, celebrou a trajetória de um homem público cuja vida se confunde com a própria história da política externa e da cultura brasileiras. A proposta para a concessão do título partiu do Fórum de Ciência e Cultura (FCC) e foi formulada pelo Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE). 

A relação de Celso Amorim com a UFRJ carrega uma memória afetiva e histórica. Em seu discurso de agradecimento, o embaixador relembrou que ingressou no Instituto Rio Branco em 1963 e, na mesma época, prestou vestibular para o curso de Filosofia da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFI) da então Universidade do Brasil, atual UFRJ. Contudo, com o golpe militar de 1964, o curso noturno foi extinto, inviabilizando as aulas com grandes intelectuais como Álvaro Vieira Pinto e José Américo de Almeida.

Reitor Roberto Medronho presidiu a mesa de honra da cerimônia | Foto: Fábio Caffé (SGCOM/UFRJ).

“Há cerimônias que nos honram por sua importância institucional, e há outras que, além disso, nos tocam de maneira muito especial. Esta é, sem dúvida, uma delas. Conceder o título de Doutor Honoris Causa da UFRJ a Celso Amorim é reconhecer uma das mais importantes trajetórias da vida pública brasileira. Celso pertence a uma geração de homens públicos que compreendeu que servir ao Brasil significa, antes de tudo, acreditar no Brasil. Amorim sempre soube que uma nação não se afirma no mundo apenas pela força de sua economia ou pela dimensão territorial. Afirma-se também por sua cultura, sua identidade, pela capacidade de produzir ideias e pela coragem de defender seus próprios interesses”, disse o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, durante a homenagem.

As “Múltiplas Vidas” de Celso Amorim: Cinema e Diplomacia

A saudação oficial ao homenageado foi proferida pela professora emérita Andrea Daher, que traçou de forma poética as diferentes facetas e “vidas” vividas por Amorim. Daher destacou a precoce imersão de Amorim no cinema brasileiro, atuando como assistente de direção de Ruy Guerra no filme Os Cafajestes e, posteriormente, como diretor-geral da Embrafilme entre 1979 e 1982. 

Celso Amorim sendo recebido na cerimônia realizada no Palácio Universitário | Foto: Fábio Caffé (SGCOM/UFRJ).

Na diplomacia, Amorim construiu uma carreira de múltiplas competências desde sua formatura no Instituto Rio Branco, em 1965. Atuou em postos em Londres, Washington e chefiou a missão brasileira junto ao Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio) e à Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra. Foi duas vezes ministro das Relações Exteriores (de 1993 a 1995 e de 2003 a 2011), ministro da Defesa (de 2011 a 2015) e, atualmente, atua como assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais. 

A coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, Christine Ruta, comparou a vida pública de Amorim a viver dentro de um furacão. Ela pontuou os desafios das instituições multilaterais contemporâneas, como as pressões sobre a Organização das Nações Unidas (ONU) e a OMC, e destacou o papel do homenageado na consolidação de blocos como os Brics para desenhar um sistema internacional multipolar. Ruta trouxe uma curiosidade da juventude de Amorim: muito antes do cinema e do Itamaraty, o embaixador traduziu para o português o livro O Mágico de Oz, uma narrativa que começa justamente com a força de um furacão. “É difícil não ver nisso uma espécie de premonição literária das tempestades políticas que o embaixador Celso Amorim ainda atravessaria”, assinalou a coordenadora.

Desenvolvimento, Paz e Soberania Tecnológica

Durante a cerimônia, Celso Amorim fez uma análise do atual cenário geopolítico, com a proliferação de conflitos mundiais. Dialogando com os conceitos dos pontífices Paulo VI, o embaixador propôs uma inversão necessária para o nosso tempo: “A paz é o novo nome do desenvolvimento”. Amorim também projetou os desafios éticos e geopolíticos da inteligência artificial, defendendo que o Sul Global precisa cooperar para que a tecnologia não se torne um novo instrumento de dominação seletiva.

Celso Amorim fez uma análise do atual cenário geopolítico | Foto: Fábio Caffé (SGCOM/UFRJ).

“O Brasil não pode abrir mão da capacidade de diversificar parcerias. Devemos continuar dispostos a cooperar com todos os países, de todos os continentes, independentemente da sua orientação política. A tarefa principal da política externa hoje é assegurar uma posição altiva e soberana no novo equilíbrio global. A inserção nacional do Brasil passa necessariamente pela integração regional com a América Latina, em especial a América do Sul. Rejeitamos de maneira categórica a ideia de que a América Latina possa ser tratada como área de domínio de uma superpotência”, disse Amorim.

A Aliança com a África

A cerimônia contou com a  apresentação artística do coral Brasil Ensemble UFRJ, dirigido pela professora Maria José Chevita Rezende. O grupo apresentou clássicos e encerrou com África Unida, criação coletiva moçambicana regida por Feliciano Comé.

Coral Brasil Ensemble UFRJ | Foto: Fábio Caffé (SGCOM/UFRJ).

Roberto Medronho destacou a força simbólica dessa homenagem musical, lembrando que o repertório resgata um trecho de O Grito de Moeda, a primeira ópera moçambicana, que recria o histórico massacre de resistência colonial de 1960. Medronho aceitou o desafio de Amorim de estreitar ainda mais os laços acadêmicos com o continente africano, ressaltando com orgulho que a Universidade é embaixadora de ciência e educação da Associação das Universidades Africanas.

Além do reitor e do homenageado, também compuseram a mesa de honra da cerimônia a vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci; a oradora e professora emérita da UFRJ, Andrea Daher; e a coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, Christine Ruta.

Marcelo Macedo Corrêa e Castro é o novo professor emérito da UFRJ 

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu nessa segunda-feira, 17/8, o título de professor emérito ao docente titular aposentado da Faculdade de Educação (FE) e ex-decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) Marcelo Macedo Corrêa e Castro. Com mais de 44 anos de dedicação à Minerva, em atividades de ensino,  pesquisa, extensão e gestão, sempre defendeu a educação, especialmente o ensino de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e da formação de professores, com destaque para a valorização do ensino público.

A cerimônia, que aconteceu no Salão Dourado do Palácio Universitário, no Campus Praia Vermelha, na Urca, marcou uma dupla comemoração. É que, oficialmente, o  reconhecimento institucional da significativa trajetória acadêmica de Corrêa e Castro foi realizada na data de aniversário de 70 anos do docente. Além do homenageado, a mesa de honra, presidida pelo reitor da UFRJ, Roberto Medronho, teve a seguinte composição: a diretora da FE, Ana Paula Abreu Moura; o decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), Vantuil Pereira; e a professora Marlene de Carvalho, oradora da solenidade.  

 “Educador é educador até o último suspiro, não se aposenta. O professor Marcelo formou gerações e gerações de cidadãos críticos e empáticos, que hoje também ajudam a formar gerações e gerações. Reforço aqui que quem faz a beleza e a pujança da Universidade são as pessoas. Fico muito feliz de hoje termos um professor emérito que, além de educador, é poeta. Hoje, o professor Marcelo Macedo Corrêa e Castro entra para o panteão de glória dos eméritos, grupo que mensalmente reúno para ouvir a sapiência, representando uma área de grande relevância”, destacou Medronho.

Mesa de honra da cerimônia de emerência: professora Marlene de Carvalho; professor Marcelo Macedo Corrêa e Castro; reitor Roberto Medronho; decano do CFCH, Vantuil Pereira; e diretora da FE, Ana Paula Abreu Moura | Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

Um oráculo muito especial

Durante a solenidade, muitas contribuições do docente foram destacadas, entre elas: a relevante contribuição do professor no processo de reconstrução da Faculdade de Educação; o fortalecimento do diálogo com o Colégio de Aplicação (CAp); a intensificação da interlocução com as escolas públicas; a criação da Revista Contemporânea de Educação; e a articulação permanente da FE tanto com outras unidades da UFRJ quanto com as instituições externas.

Simbolizando o respeito à experiência e à relevância intelectual e institucional de Corrêa e Castro, Ana Paula Abreu Moura lembrou a forma carinhosa e brincalhona que, por vezes, os colegas da FE se referem ao homenageado no dia a dia: “Em caso de dúvidas, é só perguntar para o nosso oráculo”. Pereira, por sua vez, enfatizou as qualidades essenciais que identifica no professor: “Ocupa um lugar muito especial e próprio. Além de ser uma liderança fantástica, é uma figura humana excepcional, franco, sempre disponível para ouvir e aprender, afetuoso, acolhedor e generoso, mesmo na discordância”.

Emoção e reconhecimento durante cerimônia no Palácio Universitário | Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

Educador para sempre

Durante seu discurso, repleto de emoção e agradecimentos aos familiares, amigos, colegas, ex-estudantes, e servidores técnicos-administrativos em Educação (TAEs),  Marcelo Macedo Corrêa e Castro compartilhou um fato relacionado ao período que antecedeu sua aposentadoria e que o fez compreender que, na vida de um educador, não existe uma última aula: 

“Em dezembro de 2023, minha última turma descobriu que iria me aposentar e organizou uma festinha para o último dia de aula, mas houve um contratempo que não foi possível realizar o planejado. Enquanto tentava lidar com o vazio e a frustração por ter sido privado de oferecer minha última aula à turma, recebi a seguinte mensagem de um estudante de pedagogia: ‘Gostei muito das aulas e de ter conhecido o senhor. Já estava me preparando para levar o bolo e o café para que você soubesse o quanto é querido, não só por mim, mas por toda a turma. Muito obrigado por todo o conhecimento compartilhado, conversas e conselhos em relação à monografia. Você conseguiu tornar um prazer acordar sexta-feira de manhã. Isso é um grande feito!’. A mensagem me ajudou a entender que, apesar das dificuldades vividas, valeu a pena acordar para o mundo naquela sexta-feira de manhã em 17 de agosto de 1956”, relatou o professor.

Homenageado acompanhado pela sua comissão de honra | Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

Belita Koiller recebe título de professora emérita da UFRJ

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu nesta sexta-feira, 7/8, o título de professora emérita à docente titular aposentada do Instituto de Física (IF) Belita Koiller. A homenagem, oficializada durante a sessão solene do Conselho Universitário (Consuni), ocorreu na sexta-feira, 7/8, no Salão Nobre da Decania do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN), na Cidade Universitária. A iniciativa institucional visa ao reconhecimento de mais de cinco décadas de contribuições singulares de dedicação à pesquisa, ao ensino e à formação de novos cientistas.

Além da homenageada, a mesa de honra, presidida pela vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci, teve a seguinte composição: o decano do CCMN, Cabral Lima; o diretor do IF, Bruno Souza de Paula; e o professor emérito Luiz Davidovich, orador da solenidade e um dos integrantes da comissão de honra, que acompanhou a entrada da docente na cerimônia. Juntamente com ele, estiveram os professores do IF Érica Macedo, Eduardo Fraga, Rodrigo Capaz e Thereza Lacerda.

O título reconhece mais de cinco décadas de contribuições e dedicação de Belita à pesquisa, ao ensino e à formação de novos cientistas | Foto: Fernando Souza/ Adufrj

A trajetória de Belita na UFRJ teve início em 1994, quando ingressou no corpo docente. De lá para cá, ela também exerceu funções de liderança acadêmica na Universidade, incluindo a direção do IF. Graduada em Física pela PUC-Rio, concluiu o doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 1975. Com mais de uma centena de artigos científicos publicados, a professora tornou-se referência internacional na área de Teoria da Matéria Condensada. Atualmente, suas pesquisas concentram-se no comportamento quântico de sistemas eletrônicos e em sua aplicação no desenvolvimento de dispositivos quânticos. 

Ao longo da carreira, a docente recebeu diversas distinções da comunidade científica. Em 1982, foi contemplada com a Guggenheim Fellowship, que lhe permitiu desenvolver pesquisas nos Estados Unidos.  Em 1995, tornou-se a primeira mulher eleita membro titular da Academia Brasileira de Ciências na área de Ciências Físicas. Dez anos depois, foi agraciada com o International Award for Women in Science, em reconhecimento à relevância de sua produção científica.

Entre outras honrarias, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (2010), foi eleita membro da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e da Academia de Ciências da América Latina, além de conquistar a Medalha Ângelo da Cunha Pinto (2021) e o Prêmio Joaquim Costa Ribeiro da Sociedade Brasileira de Física (2025).

Além de exaltar o rigor acadêmico da homenageada durante a cerimônia, Cássia Turci pontuou o compromisso de Belita com a infraestrutura da Universidade, mencionando sua persistência na construção do novo prédio do Instituto de Física, e celebrou seu entusiasmo inabalável pelo ensino e pelo sentimento de pertencimento à instituição, o que a torna uma figura brilhante e generosa na história da ciência brasileira.

A vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci, e a homenageada, Belita Koiller | Foto: Fernando Souza/ Adufrj

“A presença da Belita no Instituto de Física não só incentivou o desenvolvimento de muitos projetos de pesquisa, mas também atraiu nossos jovens, principalmente as meninas, para a área de ciência. Belita não perde o entusiasmo, a dedicação para com a universidade. Valores que nós precisamos, de fato, incentivar aqui. A empatia e a preocupação em você preparar uma boa aula para os nossos estudantes, que são a nossa maior razão de ser”, disse Turci.

Em sua saudação, o professor Luiz Davidovich ressaltou que o título concedido a Belita simboliza que a Universidade se tornou “maior e melhor” por meio de seu trabalho e exemplo, integrando-a permanentemente à história da instituição. Relembrou a trajetória compartilhada desde os tempos de graduação na PUC-Rio e destacou o pioneirismo e a coragem de Belita ao enfrentar o doutorado em Berkeley como a única mulher de sua turma. Ele enfatizou que essa determinação em ocupar espaços majoritariamente masculinos, aliada a uma curiosidade científica sempre renovada, permitiu que ela construísse uma carreira brilhante, marcada pela sensibilidade em identificar e formular as questões científicas que realmente importam.

Além da excelência acadêmica, o orador exaltou a obra científica ampla e original da homenageada, especialmente suas contribuições fundamentais na área de computação quântica, que uniram de forma indissociável a ciência básica à inovação tecnológica.

Belita Koiller e o professor Luiz Davidovich | Foto: Fernando Souza/ Adufrj

“Belita defendeu a qualidade da ciência, a internacionalização da pesquisa brasileira, a formação de novas gerações e a construção de instituições sólidas. Defendeu também, com firmeza, a igualdade e oportunidades para as mulheres na ciência. É uma cientista de grande rigor intelectual, uma colega solidária e interlocutora generosa. Sua franqueza é conhecida por todos. Não evita os debates difíceis e não se acomoda diante de ideias estabelecidas; sua firmeza nasce sempre de um compromisso profundo com a ciência, com a universidade e com os colegas”, afirmou Davidovich.

O diretor do IF, Bruno Souza de Paula, enfatizou a dedicação de Belita ao coletivo, lembrando que ela exerceu a Direção do Instituto em um período especialmente desafiador: durante a pandemia de covid-19. Além disso, ressaltou sua contribuição acadêmica administrativa como coordenadora, por duas vezes, do curso de pós-graduação em Física.

Em vez de seguir o protocolo de um discurso formal, Belita Koiller optou por ministrar o que chamou de “seminário”, utilizando sua experiência didática para explicar as bases da física que permitem as tecnologias modernas. Tratou desde a evolução do átomo e da matéria, passando pela história dos semicondutores, da amplificação de sons e sinais, da criação de computadores portáteis, até falar do futuro na computação quântica.

Título foi concedido em cerimônia no Salão Nobre da Decania do CCMN | Foto: Fernando Souza/ Adufrj

“É muito gratificante ter esse reconhecimento, que eu não sei se mereço, mas também tem a parte triste que diz que é o fim de uma carreira. Me lembro do fato de eu ter vindo da PUC, onde as condições físicas eram excelentes. Sempre quis trazer para cá o mesmo conforto e dignidade que eu tinha em uma instituição particular. Sempre tentamos melhorar e acho que conseguimos. Nossas instalações estão cada vez melhores e hoje também está mais feminino”, ressaltou Belita.

UFRJ concede título de doutor honoris causa ao historiador português Luís Reis Torgal

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu, nesta terça-feira (9/6), o título de doutor honoris causa ao professor português Luís Manuel Soares dos Reis Torgal, docente catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e uma das mais importantes referências da historiografia contemporânea em língua portuguesa.

A homenagem foi realizada em sessão solene do Conselho Universitário (Consuni), por iniciativa do Instituto de História da UFRJ. A cerimônia contou com a participação remota do agraciado, que recebeu a mais alta distinção acadêmica concedida pela universidade. No Rio de Janeiro, o professor Angelo Brigato Ésther, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), representou o homenageado. A saudação oficial foi feita pela professora Maria Manuela Tavares Ribeiro, da Universidade de Coimbra, responsável por apresentar sua trajetória intelectual e acadêmica.

Ao longo de mais de cinco décadas dedicadas ao ensino, à pesquisa e à produção científica, Reis Torgal consolidou-se como um dos principais estudiosos da História Moderna e Contemporânea. Sua obra trouxe contribuições fundamentais para a compreensão da história política, das ideias, das instituições e da própria construção do conhecimento histórico.

Professor da Universidade de Coimbra desde a década de 1970, foi membro fundador do Centro de Documentação 25 de Abril e do Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra (CEIS20). Também atuou como professor convidado em universidades e centros de pesquisa na França, Inglaterra, Japão e Brasil, contribuindo para a formação de gerações de pesquisadores e para o fortalecimento da cooperação acadêmica internacional.

Sua produção intelectual ganhou projeção especialmente pelos estudos sobre liberalismo, autoritarismo, fascismo, salazarismo, memória, democracia e teoria da História, temas que o transformaram em referência internacional no campo das Humanidades.

Defesa da democracia

Durante a cerimônia, o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, destacou a relevância da obra de Reis Torgal para a compreensão crítica da sociedade contemporânea e para a defesa dos valores democráticos. “Ao homenagear o professor Reis Torgal, a UFRJ afirma o valor da História como instrumento de compreensão crítica do mundo, como exercício de memória e como compromisso com a democracia”, disse.

Medronho ressaltou ainda que os estudos desenvolvidos pelo pesquisador sobre o Estado Novo português, os regimes autoritários e as relações entre memória e poder permanecem atuais em um cenário global marcado por desafios à democracia. “A democracia precisa ser cultivada, defendida e ensinada. Essa é uma lição que fala profundamente à universidade brasileira”, declarou o reitor.

Para Medronho, a homenagem também representa o reconhecimento da importância das Humanidades e do pensamento crítico em um período marcado pela circulação acelerada de informações e por tentativas de apagamento da memória histórica. “Em um tempo marcado pela pressa, pela desinformação e por tentativas de apagar a memória, a História nos devolve profundidade, contexto e responsabilidade”, afirmou.

Ao agradecer a honraria, Reis Torgal destacou a longa relação acadêmica e intelectual construída com o Brasil ao longo de décadas de intercâmbio, pesquisa e colaboração com universidades brasileiras. Em seu discurso, lembrou que visitou o país mais de 30 vezes e participou de congressos, projetos de pesquisa e atividades de ensino em diferentes regiões, além de orientar estudantes e desenvolver parcerias com pesquisadores brasileiros.

“Considero esta honra difícil de justificar, mas procuro explicá-la por uma longa trajetória de trabalho, de investigação e de colaboração com colegas brasileiros ao longo de muitos anos”, afirmou o homenageado. 

Ele ressaltou ainda o papel da pesquisa e da reflexão crítica na construção do conhecimento. “Sempre investigar, sempre interrogar-me sobre os resultados da minha pesquisa. Quem faz da investigação histórica um exercício crítico sabe que está sempre pronto a corrigir e a aprender”, observou o historiador.

Ao recordar sua trajetória, Reis Torgal mencionou a colaboração com pesquisadores brasileiros desde a década de 1980 e destacou a amizade acadêmica construída com nomes importantes da historiografia nacional, entre eles o professor Afonso Carlos Marques dos Santos, responsável pela proposição da homenagem aprovada pela UFRJ.

Em seu discurso, o reitor enfatizou que a homenagem fortalece as relações entre Brasil e Portugal e reafirma o papel da cooperação científica internacional na produção do conhecimento. “Somos países atravessados por memórias comuns, por encontros e tensões, por heranças coloniais, por lutas democráticas e por desafios contemporâneos que exigem cooperação científica, sensibilidade histórica e compromisso público”, argumentou Medronho.

A professora Maria Manuela Tavares Ribeiro destacou, em sua saudação, o rigor intelectual do pesquisador, sua atuação como docente e sua contribuição para a formação de sucessivas gerações de historiadores em Portugal e no exterior. Segundo ela, sua obra é marcada pela defesa da liberdade, pelo compromisso com a democracia e pela permanente disposição para o diálogo acadêmico.

Com a concessão do título, Luís Reis Torgal passa a integrar o seleto grupo de personalidades nacionais e internacionais homenageadas pela UFRJ por suas contribuições excepcionais à ciência, à cultura, à educação e ao desenvolvimento do conhecimento humano. Além de reconhecer uma trajetória acadêmica de excelência, a honraria reafirma os laços históricos e intelectuais que unem a UFRJ e a Universidade de Coimbra há décadas.

Cinco décadas dedicadas à ciência: Luiz Eurico Nasciutti recebe título de professor emérito da UFRJ

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu nesta segunda-feira, 8/6, o título de professor emérito ao professor Luiz Eurico Nasciutti, docente titular aposentado do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e atual decano do Centro de Ciências da Saúde (CCS). A homenagem foi realizada em sessão solene do Conselho Universitário (Consuni), no auditório Professor Rodolpho Paulo Rocco (Quinhentão), na Cidade Universitária.

A mais alta distinção acadêmica concedida pela universidade reconhece a trajetória de um professor que dedicou mais de 50 anos à UFRJ, formando gerações de estudantes, contribuindo para o avanço da ciência brasileira e exercendo importantes funções de gestão universitária.

Professor titular do ICB, Luiz Eurico graduou-se em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília, concluiu o mestrado em Histologia e Embriologia na UFRJ e obteve o doutorado em Biologia Celular e Molecular pela Université Pierre et Marie Curie, na França. Sua produção científica se concentra nas áreas de biologia celular e tecidual, com destaque para pesquisas sobre endometriose, câncer de próstata e interações entre células e tecidos.

Em seu discurso, Luiz Eurico relembrou sua chegada à UFRJ em 1973, quando veio ao Rio de Janeiro para cursar o mestrado, e sua contratação como professor da universidade em 1975. Em uma fala marcada pela emoção, agradeceu a mestres, colegas, orientandos, familiares e amigos que fizeram parte de sua trajetória acadêmica e pessoal.

O professor recordou a influência de docentes que ajudaram a moldar sua formação, como Gilberto Leandro Santa Rosa, Carlos Chagas Filho, Francisco Bruno Lobo e Jorge Maia, entre outros. Também destacou sua experiência no Collège de France durante o doutorado e a construção do Laboratório de Interações Celulares, que se tornou referência nacional em pesquisas sobre fisiologia e patologias do sistema reprodutor.

Ao refletir sobre sua trajetória docente, afirmou ter buscado inspiração na pedagogia dialógica de Paulo Freire, defendendo uma universidade baseada na construção coletiva do conhecimento e no compromisso com a sociedade. “Procurei aplicar a pedagogia dialógica proposta por Paulo Freire, na qual estudantes e educadores constroem conhecimento coletivamente, relacionando aprendizagem e consciência política”, afirmou.

Em um dos momentos mais emocionantes da cerimônia, Luiz Eurico ressaltou a importância da família em sua caminhada e agradeceu à esposa, às filhas e aos amigos que o acompanharam ao longo de sua vida acadêmica. Encerrando seu pronunciamento, citou um trecho do poema Elogio do Aprendizado, de Bertolt Brecht: “Aprenda o mais simples. Não é suficiente, mas aprenda. Não desanime, comece. É preciso saber tudo. É preciso assumir o comando”.

Ao saudar o novo professor emérito, o reitor Roberto Medronho destacou a relevância da trajetória de Luiz Eurico para a história da UFRJ e para a formação de gerações de estudantes. “Hoje, como reitor, tenho a honra de saudar como professor emérito alguém que foi meu professor e participou da minha formação. Sua trajetória honra a história desta instituição”, disse.

Medronho também ressaltou o papel de Luiz Eurico na construção da universidade pública brasileira. “A universidade pública é feita, antes e acima de tudo, por pessoas. Por mestres, pesquisadores, servidores e estudantes que dedicam décadas à construção do conhecimento e da formação humana. E o professor Luiz Eurico é uma dessas pessoas.”

Na avaliação do reitor, a concessão do título ultrapassa o reconhecimento individual. “A concessão do título de professor emérito não é apenas uma homenagem ao passado. É também uma mensagem ao futuro. É a universidade dizendo às novas gerações que a ciência importa, que a educação importa e que o compromisso com o serviço público importa”, observou Medronho.

Bastante emocionado, Luiz Eurico Nasciutti recebeu o título de professor emérito no auditório Quinhentão, no Centro de Ciências da Saúde Foto: Sonia Toledo/ SGCOM

O discurso de saudação da comissão de honra foi feito pelo professor Antônio Palumbo Júnior, que destacou as contribuições de Luiz Eurico para a consolidação da pesquisa em biologia celular e morfologia na UFRJ, sua atuação decisiva na criação e fortalecimento do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfológicas — atualmente nota máxima na Capes — e sua liderança na modernização do Instituto de Ciências Biomédicas.

Ex-aluno de Nasciutti, Palumbo também ressaltou características pessoais do homenageado, como a capacidade de construir consensos, estimular a colaboração acadêmica e acolher estudantes e pesquisadores ao longo de sua trajetória.

Ao longo da cerimônia, a trajetória acadêmica, científica e institucional de Nasciutti foi lembrada por colegas, alunos e gestores da universidade. A diretora do Instituto de Ciências Biomédicas, Patrícia Dias Fernandes; a vice-decana do Centro de Ciências da Saúde, Lina Zingali; e a vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci; também discursaram em homenagem ao professor. 

Docente da UFRJ desde 1975, Luiz Eurico Nasciutti participou da criação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfológicas, presidiu a Sociedade Brasileira de Biologia Celular, dirigiu o Instituto de Ciências Biomédicas e, desde 2019, ocupa a Decania do Centro de Ciências da Saúde.

Também se destacou pela liderança do Laboratório de Interações Celulares, referência nacional em estudos sobre matriz extracelular, endometriose e câncer de próstata. Bolsista de produtividade do CNPq e Cientista do Nosso Estado da Faperj, orientou dezenas de mestres, doutores e pós-doutores ao longo da carreira.

UFRJ concede título de doutor honoris causa ao cardiologista português Fausto Pinto

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu nesta segunda-feira (5/5) o título de doutor honoris causa ao médico cardiologista português Fausto José da Conceição Alexandre Pinto. A homenagem, realizada em sessão solene do Conselho Universitário, reconhece a trajetória internacional do pesquisador e sua contribuição para a ciência, a formação médica e o fortalecimento da cooperação acadêmica entre Brasil e Portugal na área da saúde. A cerimônia ocorreu no Auditório Halley Pacheco, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF).

Professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Fausto Pinto tem uma trajetória marcada pela atuação em instituições científicas internacionais e pela defesa da cooperação entre universidades e sistemas de saúde dos países de língua portuguesa. Ao longo da carreira, presidiu entidades como a European Society of Cardiology e a World Heart Federation, além de dirigir a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa entre 2015 e 2022.

Em seu discurso, o homenageado destacou a importância histórica da UFRJ para a ciência e o ensino superior no Brasil e ressaltou os vínculos acadêmicos entre Portugal e Brasil. “A Universidade Federal do Rio de Janeiro é incontestavelmente uma das grandes referências do ensino superior no espaço ibero-americano e global”, afirmou. Segundo Fausto Pinto, a história da instituição “confunde-se com a própria evolução da ciência, da medicina e do pensamento crítico do Brasil”.

O cardiologista também enfatizou o papel da cooperação internacional diante dos desafios contemporâneos da saúde. “Nenhum país, nenhuma instituição poderá enfrentar isoladamente os grandes desafios globais da saúde. É através de redes de colaboração, de partilha de conhecimento e de construção de soluções conjuntas que conseguiremos avançar”, disse.

Ao mencionar a relação entre a Universidade de Lisboa e a UFRJ, Fausto Pinto afirmou que as instituições “partilham valores, objetivos e uma visão comum do futuro”. Para ele, o Brasil exerce papel central nesse processo de integração científica no espaço lusófono. “Pela sua dimensão, pela sua capacidade científica e pela qualidade dos seus recursos humanos, o Brasil assume-se como um verdadeiro motor desta comunidade na medicina”, argumentou.

Durante a cerimônia, o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, destacou não apenas a trajetória acadêmica e científica do homenageado, mas também sua dimensão humana e sua atuação internacional em defesa da medicina e da formação médica. “Fausto Pinto é um grande cidadão do mundo. Visitou mais de 120 países levando a mensagem da medicina, da cardiologia, da assistência digna, do ensino e da pesquisa”, afirmou Medronho.

O reitor também relembrou o primeiro contato com o cardiologista português, durante as tratativas para ampliar a cooperação entre a Faculdade de Medicina da UFRJ e a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. “De imediato percebi que era uma pessoa diferente. O brilho no olhar e o carinho com que trata o outro mostram uma dimensão humana rara”, declarou.

Segundo Medronho, as reflexões apresentadas por Fausto Pinto sobre o futuro da cardiologia e da medicina dialogam diretamente com os desafios contemporâneos da área da saúde. “Ali estavam lançadas as bases da medicina de precisão, da inteligência artificial e do uso racional das tecnologias”, disse.

A professora Gláucia Maria Moraes de Oliveira, da Faculdade de Medicina da UFRJ, também discursou em homenagem ao cardiologista português. Em sua fala, destacou o papel de Fausto Pinto na consolidação da cooperação acadêmica entre a UFRJ e a Universidade de Lisboa, especialmente nos acordos de validação automática de diplomas, dupla titulação e intercâmbio estudantil. “A excelência é uma construção diária, professor”, afirmou.

Segundo Gláucia, a atuação do homenageado ajudou a fortalecer iniciativas de integração entre escolas médicas de países lusófonos e ampliou as possibilidades de formação e circulação internacional de estudantes e pesquisadores. “Há um verdadeiro oceano de possibilidades em cada uma dessas conquistas, uma visão clara do futuro que desejamos para as nossas escolas e para os nossos países”, declarou.

A cerimônia foi presidida pelo reitor Roberto Medronho e contou com a participação do decano do Centro de Ciências da Saúde (CCS), Luiz Eurico Nasciutti; do diretor da Faculdade de Medicina, Alberto Schanaider; do professor emérito Manuel Domingos da Cruz Gonçalves; e do superintendente-geral do Complexo Hospitalar UFRJ-Ebserh, Amâncio Paulino de Carvalho. 

Trajetória

Fausto José da Conceição Alexandre Pinto nasceu em 3 de novembro de 1960, em Santarém, Portugal. Com atuação destacada na cardiologia mundial, Fausto Pinto é professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e ex-presidente da European Society of Cardiology e da World Heart Federation. 

Ao longo da carreira, publicou mais de mil artigos científicos e participou de centenas de conferências internacionais, consolidando-se como uma das principais referências da cardiologia contemporânea. Suas áreas de atuação incluem imagiologia cardiovascular, cardiologia de intervenção, insuficiência cardíaca, anticoagulação, cardiologia digital e saúde cardiovascular global.

O médico português foi pioneiro no uso da ultrassonografia intravascular aplicada ao estudo do coração transplantado e mantém forte relação acadêmica e científica com o Brasil. É membro honorário da Academia Nacional de Medicina, da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Academia de Medicina da Bahia, além de ter recebido, em 2022, a Medalha da Ordem do Mérito Médico, na classe de Grande Oficial.

Fausto Pinto também teve papel central na aproximação entre a Faculdade de Medicina da UFRJ e a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Durante sua gestão à frente da instituição portuguesa, foram fortalecidos acordos de intercâmbio, dupla titulação, cotutela e validação automática de diplomas entre universidades brasileiras e portuguesas.

Entre os resultados dessa cooperação está o acordo que permitiu, entre 2019 e 2024, a validação automática de diplomas médicos entre as duas instituições. Mais de 1.700 médicos formados pela UFRJ utilizaram o mecanismo para reconhecimento profissional em Portugal.

O cardiologista também é um dos idealizadores da Rede de Cooperação das Escolas Médicas de Língua Portuguesa (CODEM-LP), criada em 2019 com participação da UFRJ e da Universidade de Lisboa, reunindo instituições de países lusófonos como Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e Macau.

José Sérgio Leite Lopes recebe o título de professor emérito da UFRJ

O professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (PPGAS/MN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Sérgio Leite Lopes, recebeu nesta segunda-feira, 15/12, o título de professor emérito da UFRJ. A cerimônia ocorreu na sala Copacabana, no prédio da Reitoria da Universidade. A solicitação de concessão do título foi realizada pelo PPGAS/MN e aprovada por aclamação pelo Conselho Universitário (Consuni) da UFRJ em 13/6/2024.

“O professor emérito é aquele que contribuiu, para além do seu fazer diário, para o desenvolvimento da Universidade. O professor José Sérgio encarna isso com muita propriedade, não apenas pela sua imensa contribuição à ciência e à memória, mas também pela luta contra a ditadura e contra as desigualdades”, disse o reitor da UFRJ, Roberto Medronho.

O antropólogo José Sérgio Leite Lopes graduou-se em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro em 1969 e fez mestrado e doutorado em Antropologia Social pela UFRJ em 1975 e 1986. O pós-doutorado foi realizado na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris entre 1988 e 1990. Leite Lopes é professor do Museu Nacional desde 1978, tendo atuado como professor visitante na Universidade Federal de Pernambuco entre 2003 e 2006. Além de coordenar o Programa de Memória dos Movimentos Sociais (Memov), sediado no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE), é também coordenador da Comissão Memória e Verdade (CMV) da UFRJ.

Representantes do PPGAS/MN e da CMV também participaram da cerimônia | Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

Leite Lopes destacou-se por pesquisas pioneiras sobre o trabalho e as classes trabalhadoras, especialmente no Nordeste canavieiro, articulando investigação empírica rigorosa e inserção institucional estratégica. Sua dissertação de mestrado, O Vapor do Diabo, e, posteriormente, a tese de doutorado, A tecelagem dos conflitos de classe na cidade das chaminés, tornaram-se referências na antropologia do trabalho no Brasil. Paralelamente à carreira acadêmica, teve papel central na articulação entre o PPGAS/MN e órgãos como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), contribuindo para a consolidação de grandes projetos coletivos de pesquisa e para a própria sustentabilidade institucional do Programa.

Ao longo das décadas seguintes, como professor do PPGAS/MN, o antropólogo ampliou seu campo de investigação para temas como antropologia do esporte, história social da sociologia do trabalho, ambientalização dos conflitos sociais e memória dos movimentos sociais, com forte inserção internacional, especialmente na França, em colaboração com Pierre Bourdieu e seu grupo. Foi coordenador de programas e núcleos de pesquisa de grande impacto, além de exercer funções acadêmicas e institucionais de destaque na UFRJ e em associações científicas nacionais. Sua atuação combina produção intelectual extensa, formação de gerações de pesquisadores, produção audiovisual etnográfica e compromisso com a pesquisa coletiva, a memória social e a interlocução pública das ciências sociais no Brasil.

“Celebramos hoje não só essa carreira vasta, rica e longa, mas também um modo de fazer a nossa universidade. Um modo responsável, com muita intelectualidade e também um modo de vida relacionado com a democracia, que precisamos muito reforçar na nossa universidade. Tem uma história relacionada ao campesinato, às classes trabalhadoras, aos movimentos sociais, às violações dos direitos que atravessam, infelizmente, até hoje, a história do Brasil. Sua obra é extremamente extensa e necessária”, destacou a coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, Christine Ruta.

A coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, Christine Ruta, destacou a trajetória de José Sérgio Leite Lopes durante a cerimônia | Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

Ao longo de toda a sua trajetória acadêmica, José Sérgio Leite Lopes orientou 26 mestres e 26 doutores e supervisionou oito pós-doutorados. Seu trabalho resultou em uma extensa lista de publicações no Brasil e no exterior, destacando-se 76 artigos publicados em periódicos, 16 livros publicados/organizados, 61 capítulos de livros publicados e produção em antropologia visual de cinco documentários (filmes) e cinco documentários de trajetórias biográficas. O antropólogo é bolsista 1A do CNPq, onde mantém a bolsa de produtividade continuamente desde 1983.

Beatriz Vieira de Resende recebe título de Professora Emérita da UFRJ

Beatriz Vieira de Resende é a mais recente professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Titular da Faculdade de Letras (FL), a docente teve o título outorgado na sessão solene do Conselho Universitário (Consuni) da UFRJ, realizada na tarde desta terça, 25/11, no Salão Nobre da Faculdade Nacional de Direito (FND), no Centro do Rio. A homenageada, especialista no autor Lima Barreto, também já ministrou aulas de artes cênicas e ocupou cargos na gestão institucional, quando foi coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura e esteve na direção da Editora UFRJ. 

Na mesa da cerimônia, presidida pelo reitor da UFRJ, Roberto Medronho, também estavam a vice-reitora, Cássia Turci; o decano do Centro de Letras e Artes (CLA), Afrânio Barbosa; a diretora da Faculdade de Letras, Sonia Cristina Reis; e o professor emérito Eduardo Coutinho, integrante da comissão de honra, responsável pelo discurso de saudação à docente. Com uma biografia marcada pela paixão pelos livros, pela defesa da democracia e por um apreço especial pela educação pública, o que não faltou foi o reconhecimento de sua relevante trajetória por parte da Administração Central da UFRJ: 

“A professora Beatriz tem sua história ligada à faculdade pública. Ela é bacharel e licenciada em Português e Literaturas pela UFRJ, mestre em Teoria da Literatura e doutora em Letras também pela Universidade, além de ter realizado estágio de pós-doutorado no Museu Nacional da UFRJ. Enfim, ela é cria da casa, filha da Minerva, que está em seu DNA. Parabéns, professora Beatriz Resende,  muito bem-vinda a este panteão de glória!”,  enfatizou Medronho. 

Cássia Turci, por sua vez, destacou que ficou maravilhada com a escolha da homenageada em compor sua comissão de honra com integrantes que ilustram a representatividade do corpo social da Universidade, ou seja, técnicos administrativos em educação, docentes e alunos: A professora Beatriz espelha o que temos de mais precioso na UFRJ: o capital humano. Ela mostra em sua trajetória não só sua competência técnica, mas algo muito maior, ao juntar a questão da arte, da literatura e a preocupação social. Que sorte a centenária Minerva ter professores eméritos como nossa homenageada!”, elogiou.

Integrantes da mesa e da comissão de honra da professora Beatriz Resende durante a sessão solene do Consuni | Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

Além dos colegas, Beatriz Vieira fez questão de frisar, com gratidão, a contribuição recebida de familiares, amigos e mestres, fundamentais para a construção de seu legado e de sua postura. Dentre outros, a docente lembrou o papel do ex-diretor da Faculdade de Letras e ex-ministro da Educação, Eduardo Portella; da amiga e docente Heloísa Buarque de Hollanda (depois, Teixeira); e do ex-reitor da UFRJ Aloísio Teixeira, ao longo de sua formação. Lima Barreto e as Letras também receberam homenagem literária da nova emérita que, durante sua fala, alertou que as artes, assim como as ciências, precisam de autonomia para existir: 

“Há uma crônica de Lima Barreto, desse autor negro que sempre me comove, que diz o seguinte: ‘Queimei os meus navios, deixei tudo por essa coisa de Letras. Abandonei todos os caminhos por esse das Letras; e o fiz conscien­temente, superiormente, sem nada de mais forte que me desviasse de qualquer outra ambição’. O curso de Letras me deu tudo o que desejava”, falou emocionada.

Familiares, amigos e corpo social da UFRJ aplaudem significativa trajetória da nova emérita da Universidade | Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

UFRJ homenageia servidores com mais de cinco décadas de serviços prestados

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu medalhas, nesta segunda-feira, 3/11, a 18 docentes e técnicos-administrativos em educação com mais de 50 anos de trabalho na instituição. A cerimônia foi marcada pela emoção dos agraciados e de seus familiares, que lotaram o auditório do Quinhentão, no Centro de Ciências da Saúde (CCS). A atividade integrou a programação da Semana do Servidor 2025.

No evento, o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, reconheceu a dedicação diária dos homenageados, que, por mais de cinco décadas, contribuíram para alcançar altos padrões de excelência no ensino, na pesquisa e na extensão. “A Universidade é feita de pessoas, de quem nela trabalha. O nosso maior patrimônio são vocês, que trabalharam ao longo destes anos todos, sejam técnicos-administrativos em educação ou docentes. E também os nossos alunos, que não são servidores, mas ajudam a aprimorar o nome da UFRJ, que tem tanto prestígio”, disse. 

Para a vice-reitora, Cássia Turci, a homenagem é uma importante forma de valorização dos servidores da Universidade. “Este reconhecimento faz diferença, porque, quando os novos servidores chegam e veem uma pessoa que está aqui há tanto tempo, eles ficam sabendo que este é um bom lugar para se trabalhar. A gente tem que se esforçar para isso, para que tenhamos um ambiente acolhedor, para que a gente consiga, de fato, trabalhar com todas as pessoas de uma forma harmoniosa, com muito respeito”, defendeu. 

Servidora celebra reconhecimento pelos 50 anos de serviços prestados à UFRJ | Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

A cerimônia também agraciou nove servidores técnico-administrativos da Pró-Reitoria de Pessoal (PR-4) com uma placa de reconhecimento ao mérito administrativo e ao espírito público pela dedicação em garantir a implementação dos direitos dos trabalhadores da Universidade, no contexto da Lei n. 15.141/2025, que alterou as carreiras dos docentes e dos técnicos-administrativos em educação. Foram implementadas mais de 7 mil progressões em tempo recorde. “Foi uma demonstração imensa de compromisso e dedicação. Queremos, com esta homenagem, registrar que o mérito acadêmico e o mérito administrativo são indissociáveis na formação e no fortalecimento da UFRJ”, afirmou a pró-reitora de Pessoal, Neuza Luzia Pinto.

Compondo a mesa ao lado do reitor, da vice-reitora e da pró-reitora de Pessoal, o decano do CCS, Luiz Eurico Nasciutti, um dos 18 homenageados, se emocionou ao receber a medalha. “Fico realmente muito contente de ver esse auditório cheio por um momento que representa muito, não só para os homenageados que aqui estão, mas também pelo que a UFRJ representa para nós e para a nossa sociedade”, disse.

Veja a lista dos servidores agraciados

・com a medalha em homenagem aos 50 anos de serviço público federal:

Ana Regina Machado de Sousa

Angela Maria Camardella Rabello 

Carlos Humberto Lionel de Souza 

Claudio Luis De Amorim 

Fatima Santos Abdalla 

Floriano Carlos Martins Pires Junior 

Joaquim Inacio de Nonno 

Jorge Luis Souza Barradas 

Jorge Luiz do Nascimento 

Luiz Eurico Nasciutti 

Marlei Gomes da Silva 

Marlene dos Santos Lima de Souza Ressur 

Nilson Costa Roberty 

Paulo Raimundo Ferreira 

Paulo Roberto Ribeiro Costa 

Reginaldo Pedro dos Santos Roosevelt Rodrigues Mota 

Sandra Maria de Brito Oliveira 

Sandra Regina Guedes Alves

・com a placa de reconhecimento ao mérito administrativo e espírito público:

Anne Elise Reis da Paixão

Cinthya de Melo Franca

Francisco Diogo Lima Gonçalves

Gildelia Maria de Oliveira

Luciana Snaider Ribeiro

Maria Tereza da Cunha Ramos

Moizes Guanabara de Carvalho

Raiani dos Santos Fernandes Gouveia

Roselea Barbosa Julio Paradella

Mario Adnet recebe título de notório saber

Pela segunda vez, em mais de 177 anos de história, a Escola de Música (EM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concede o título de notório saber, entregue a quem tem papel relevante para a música brasileira. Desta vez, o agraciado foi o compositor, violonista, arranjador, pesquisador e produtor musical brasileiro Mario Adnet. A cerimônia ocorreu na tarde de terça-feira (21/10), no Salão Leopoldo Miguez, no Centro, Rio de Janeiro. O diploma foi entregue pela reitora em exercício, Cássia Curan Turci.

O título é concedido mediante a comprovação cumulativa de experiência e desempenho de atividades e ações profissionais desenvolvidas no Brasil e no exterior que contribuem significativamente para o fortalecimento do ensino e da pesquisa em determinada área do conhecimento. Como ressaltou a superintendente acadêmica da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2), Ethel Pinheiro, é um título diferente de outros, pois é concedido a quem pode ministrar aulas, está apto a produzir conhecimento e formar novos músicos. “É uma honraria que permite aos outros pensarem a partir do ponto de vida e experiência em que a pessoa está”, disse ela. 

O homenageado abriu a cerimônia se apresentando ao lado dos músicos e amigos Jorge Helder (baixo), Marcos Nimrichter (piano) e Marcelo Costa (percussão), reverenciando a quem fez parte da própria trajetória musical. Primeiro, com a composição autoral Pedra Bonita, em seguida com Coisa nº 10, de Moacir Santos, e por último com Correnteza, de Antônio Carlos Jobim.

Ganhador de dois Grammys Latinos, Mario Cesar Gonçalves Adnet tem 68 anos e, modesto, agradeceu ao reconhecimento “diferente” da própria carreira. “Esse reconhecimento acadêmico pelo meu trabalho muito me orgulha, me dá uma felicidade enorme, pois de uma forma ou outra eu fui para a vida aprender a fazer. Agora, eu estou de olho nos jovens. Tem muita gente boa e muita coisa boa para acontecer e estou pensando o que fazer agora com essa responsabilidade”, brincou.

O proponente da honraria, o professor do Departamento de Composição da EM Carlos Almada destacou a trajetória musical de Adnet, mas também o envolvimento dele em trabalhos atuais como arranjador e produtor do primeiro álbum de Luísa Gilberto, filha mais nova de João Gilberto, e o do músico baiano Cézar Mendes, que ensinou artistas como Vanessa da Matta, Ben Gil, Daniela Mercury e Margareth Menezes, entre outros, a tocar violão. Adnet também produz mais um trabalho autoral e realiza a direção musical de um documentário sobre Tom Jobim, de Miguel Faria Júnior.

O diretor da Escola de Música, Ronal Silveira, lembrou que era a segunda vez que ele participava de igual homenagem. A primeira, em 2023, foi a concessão do título ao pesquisador afrodescendente Antônio José do Espírito Santo, que não teve a oportunidade de frequentar espaços acadêmicos, mas tinha experiência na área da etnomusicologia, com ênfase em música e cultura africana geral no Brasil. “A própria Universidade se engrandece com homenagens como essas, mostrando como ela é importante para a construção de nossa identidade nacional, como povo”, destacou.

Mario Adnet recebe o diploma das mãos da reitora em exercício, Cássia Turci, e é aplaudido pelo professor Carlos Almada, proponente do título | Foto: Sidney Coutinho (SGCOM)

A reitora em exercício, Cássia Turci, ressaltou que, apesar das restrições orçamentárias que dificultam as atividades da Universidade, a maioria dos cursos ainda recebe altas notas nas avaliações do Ministério da Educação, graças ao imenso potencial do corpo acadêmico, técnico e dos alunos. “Esse não é um título que qualquer um pode receber. É preciso passar por uma avaliação rigorosa do Conselho de Graduação e Pesquisa, depois, pelo Conselho Universitário, até chegar neste momento. Sabemos o quanto Mario Adnet poderá contribuir não apenas com o ensino e a pesquisa, mas também com a extensão universitária, da comunicação direta com a sociedade como um todo. Precisamos trazer os jovens para a nossa Universidade para que tenham um futuro melhor. Vamos trabalhar juntos para que a gente consiga avançar cada vez mais em prol de nosso país, pois só a educação poderá mudar o Brasil”, disse ela, encerrando a cerimônia.