A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu, na quarta-feira, 7/10, o título de Professor Honoris Causa ao cirurgião cardíaco Tirone Esperidião David, referência internacional no tratamento de doenças cardiovasculares. A homenagem foi realizada durante sessão solene do Conselho Universitário (Consuni), no Salão Dourado do Palácio Universitário, na Praia Vermelha. Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor da Universidade de Toronto, no Canadá, o médico desenvolveu procedimentos que transformaram a prática da cirurgia cardíaca.
Para o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, a trajetória de Tirone David evidencia a importância da pesquisa científica para o avanço da medicina e o papel das universidades na formação de profissionais comprometidos com o cuidado aos pacientes.
“A técnica que leva o seu nome, ao permitir a preservação da válvula aórtica na operação da raiz da aorta, expressa aquilo que dá sentido à pesquisa médica: transformar o conhecimento em benefício concreto ao paciente”, afirmou. Para o reitor, o alcance desse trabalho se estende às gerações de profissionais formadas pelo homenageado. “Essa é uma das maiores realizações de um professor: ampliar, por meio dos seus alunos, o alcance do seu compromisso com a vida.”
Medronho defendeu investimentos contínuos na formação médica, na infraestrutura dos hospitais universitários e na pesquisa científica. Segundo ele, a trajetória de Tirone demonstra a capacidade das instituições públicas brasileiras de formar profissionais que alcançam reconhecimento internacional. “Cabe a nós criar condições para que esses talentos, tantos outros talentos, floresçam, participem da ciência internacional e encontrem também no nosso país oportunidade de pesquisar, inovar, cuidar e ensinar.”

A necessidade de fortalecer a infraestrutura de ensino e assistência em saúde no Brasil também foi abordada pela vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci. Ao comentar a trajetória internacional de Tirone, ela ressaltou a importância de associar excelência científica à atenção humanizada. “A questão da empatia com as pessoas, a questão do acolhimento dos nossos pacientes, porque isso faz toda a diferença para quem está precisando de um atendimento médico”, defendeu.
A operação de David
Nascido em Ribeirão Claro, no Paraná, Tirone David concluiu a graduação em Medicina em 1968. Após realizar parte de sua formação especializada nos Estados Unidos, estabeleceu-se no Canadá, onde construiu uma carreira dedicada à cirurgia cardiovascular, à pesquisa e ao ensino. Na Universidade de Toronto, desenvolveu procedimentos para o tratamento de doenças das válvulas cardíacas e da aorta, além de contribuir para a formação de cirurgiões de diferentes países.
Entre suas principais realizações, está a operação de David, desenvolvida no fim da década de 1980. O procedimento permite reconstruir a raiz da aorta, porção inicial da principal artéria do corpo, preservando a válvula natural do paciente, quando ela apresenta condições adequadas. A técnica representou uma alternativa à substituição da válvula por uma prótese artificial e pode evitar a necessidade de uso permanente de medicamentos anticoagulantes.
Responsável pelo discurso de saudação ao homenageado, o diretor do Instituto do Coração Edson Saad (Ices/UFRJ), Mauro Paes Leme de Sá, destacou a importância dessa contribuição para a medicina. “O professor Tirone demonstrou que era possível preservar a valva natural do próprio paciente, reconstruindo a raiz aórtica ao seu redor.”
Na avaliação do professor, o legado do cirurgião não se limita aos procedimentos que desenvolveu. Seu trabalho se distingue pelo acompanhamento dos pacientes ao longo de décadas e pela avaliação sistemática dos resultados das operações, práticas fundamentais para o aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas.
“O senhor nos ensinou, por meio de sua obra, de seus escritos e do seu exemplo, que a excelência técnica e o cuidado humano com o paciente não são valores concorrentes, mas complementares”, declarou o professor. A contribuição de Tirone está presente na formação de sucessivas gerações de cirurgiões cardiovasculares, inclusive no Brasil.
Essa relação com a formação médica brasileira integra a história da UFRJ. Ao longo dos anos, o homenageado participou de atividades acadêmicas do Instituto do Coração Edson Saad, colaborou com o ensino na pós-graduação em Cardiologia e contribuiu com discussões de casos clínicos complexos. Logo, a concessão do título, proposta pela Faculdade de Medicina e pelo Ices, reconhece tanto sua projeção científica internacional quanto os vínculos estabelecidos com a Universidade.
Entre a cirurgia, a pesquisa e o ensino
Em seu pronunciamento, Tirone David relembrou as decisões que marcaram sua trajetória profissional. Ao concluir a formação cirúrgica no exterior, recebeu propostas de trabalho que lhe ofereceriam remuneração muito superior à de uma carreira universitária. A escolha, porém, foi permanecer no ambiente acadêmico, onde poderia conciliar a atividade cirúrgica com a pesquisa e o ensino.
“Eu tinha um desejo. Eu queria fazer a diferença”, contou o médico. “Eu quero sair desse mundo deixando o mundo melhor do que quando eu o achei.”


O cirurgião recordou que, quando deixou o Brasil, pretendia aperfeiçoar sua formação no exterior e retornar ao país para contribuir com a atualização da medicina brasileira. Embora sua carreira tenha se consolidado no Canadá, manteve relações com profissionais e instituições de ensino do Brasil.
Ao agradecer a homenagem, Tirone afirmou que o reconhecimento dos colegas confirma o sentido que procurou dar à sua atividade profissional. “Eu estava preocupado em fazer cirurgia bem-feita e ajudar o meu paciente”, resumiu.
O compromisso com os pacientes esteve no centro do pronunciamento da vice-diretora da Faculdade de Medicina, Izabel Calland Ricarte Beserra, que representou a direção da unidade e a Decania do Centro de Ciências da Saúde (CCS). Para a professora, a trajetória do homenageado reúne inovação científica, habilidade técnica e sensibilidade diante do sofrimento humano.
“Ele nos ensina que a técnica cirúrgica mais refinada perde o sentido se não for guiada por uma profunda compaixão e empatia pelo ser humano que está vulnerável na mesa de cirurgia”, observou.
A vice-diretora ressaltou que a concessão do título representa um ganho para a própria instituição. “A bem da verdade, é a nossa Faculdade de Medicina, o Instituto do Coração, todo o Centro de Ciências da Saúde e a nossa UFRJ que se engrandecem no dia de hoje.”
A cerimônia incluiu a exibição de um vídeo em homenagem ao cirurgião, com depoimentos sobre sua trajetória profissional e sua relação com pacientes e colegas, e uma apresentação artística do Grupo de Pesquisa Partitura Encenada, coordenado pelo professor Lenine Vasconcellos.


















































